COMER DO BOM E DO MELHOR COM STTAU

As convicções antissalazaristas levaram o jornalista a recorrer a pseudónimos, mesmo quando escrevia sobre culinária. Ana Marques Pereira reuniu-os no recém-editado Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo.

Por João Carlos Barradas

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

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Cofina

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Livros

A face gastrónoma do jornalista Luís de Sttau Monteiro a Guidinha, nos tempos idos da Primavera Marcelista de 1969-70, daquela altura “quando chega o fim do mês e a gente só come arroz disto e daquilo, principalmente arroz de nada que é um que se faz num instante e é barato”. Lamentava-se a miúda do bairro da Graça nas “Redacções da Guidinha” para o suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa e, por certo, disso muito se condoía o seu criador, que no mesmo vespertino ia vertendo crónica das idas a restaurantes de nomeada da capital, como O Escorial e O Polícia. Luís de Sttau Monteiro era gastrónomo sabedor e o registo dessa faceta do romancista e dramaturgo, corredor de Fórmula 2 e fantasista impenitente – “um mitómano”, diria o seu amigo José Cutileiro, o que talvez se devesse, segundo a comum amiga Sophia de Mello Breyner, “a ouvir mentir tanto em pequeno” – está agora consagrado num livro de Ana Marques Pereira, com fino traço gráfico do ateliê de Jorge Silva. Jornalista e opositor ao salazarismo, implicado na Intentona de Beja, em 1962 – o que o levou a refugiar-se em Inglaterra até 1967 –, Sttau Monteiro haveria de manifestar a Marcello Caetano, em 1969, a sua “boa vontade e espírito de colaboração”, sem que daí colhesse boa fama ou proveito, porfiando, em consequência, na veia de subversão dos bons costumes, em tom snobe e irónico até 1993, ano em que se finou. Alfacinha, nascido em berço de ouro, em 1926, filho de Armindo Monteiro, ministro de Salazar e embaixador em Londres – um anglófono que em 1943 se incompatibilizou com o ditador –, Sttau sempre cultivou requintes e prazeres: o avô materno, Camilo Infante de La Cerda, encaminhou-o para restaurantes de eleição e disso não se escapa. Recorreu a mais de uma dezena de pseudónimos em críticas e receitas que começou a publicar na revista Almanaque (1959-61), depois no Diário de Lisboa, entre 1969-75, e nos semanários O Jornal (1975-79) e Se7e (1978-81), tendo ainda concebido, em 1978, um programa quinzenal para a RTP, Caldo de Pedra, em que um frade peregrinava pelo País, amesendando-se com fataça na telha, sável frito ou sopa de poejos. Os seus cadernos datilografados sobre história da alimentação foram encontrados num alfarrabista por Ana Marques Pereira, médica hematologista reformada que há duas décadas vem publicando estudos sobre gastronomia, mantendo um blogue sobre a matéria. “Era um cosmopolita, conhecedor da cozinha italiana, francesa, do que se confecionava em Inglaterra ou Espanha, algo raro numa época em que, tirando um ou outro restaurante chinês ou indiano, era raro degustar-se culinárias estrangeiras em Portugal”, disse à SÁBADO Ana Marques Pereira. A mesa nada conta na ficção e na dramaturgia de Sttau Monteiro, como é evidente em duas das suas obras mais conhecidas, editadas em 1961: Angústia para o Jantar e Felizmente Há Luar! O homem charmoso e machista que prescrevia nas páginas do Almanaque a “Carta de Instrução ao Perfeito Bebedor”, foi, contudo, no entender de Ana Marques Pereira, um dos pioneiros da crítica gastronómica, a par das colunas de Alfredo de Morais no jornal O Cronista, entre 1954-58. “Pesquisar, experimentar e compreender a origem dos alimentos e a sua história” é o que caracteriza o gastrónomo que não se limita a escrever “sobre o modo de alimentação ou receitas”, indica a também autora de Do Comer e do Falar…Vocabulário Gastronómico. Fervoroso defensor das tradições regionais e do bom nome da cozinha portuguesa, Sttau não tinha contemplações para quem optasse “pelo som estrangeiro dos pratos”, comovia-se perante “um cabrito que merecia ser coroado” e deplorava restaurantes decorados com “requintado mau gosto”. Receitas de sopa de favas, bacalhau na cataplana ou arroz de atum – pobre Guidinha!... – constam deste Luís de Sttau Monteiro Gastrónomo, epicurista que, naturalmente, nunca teve dúvidas sobre onde melhor se comia em Lisboa: na casa dele, a Campo de Ourique. ●

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