SERÁ ELA A PRIMEIRA MULHER EMANCIPADA?

Não Andes Nua Pela Casa é de 1911, mas mantém a graça e a pertinência: é sobre uma provocadora que se recusa a obedecer ao marido. Estreia na Comuna, em Lisboa.

Por Rita Bertrand

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

Cofina

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Teatro

Não Andes Nua pela Casa e outras duas peças em cena esta semana que se diz de pesquisa, tem de fazer todos os autores importantes, de diferentes épocas e estilos ”, explica João Mota sobre a decisão de encenar Não Andes Nua pela Casa, uma comédia de vaudeville de Georges Feydeau – de quem, nos anos 90, encenou A Pulga atrás da Orelha, “com grande êxito” –, a seguir à trágica Casa da Bernarda Alba, de Lorca – e usando a mesma disposição circular da sala, com o público a rodear a ação: “Foi um desafio fazê-la sem palco à italiana, no cenário habitual.” Ao centro, está uma carpete sem nada por cima, onde os protagonistas – Hugo Franco, na pele do deputado Ventroux, que sonha ser ministro (ou até presidente), e a mulher, Clarisse (Maria Ana Filipe), que insiste em andar de camisa de dormir transparente – dançam um tango. É uma das adendas à peça, “que é curta”, da pena de João Mota. Outra foi transformar o mordomo (Rogério Vale) num aspirante a ator, de modo a incluir, logo a abrir, um dos cerca de 40 monólogos políticos que Feydeau escreveu, enfatizando a crítica social, antiburguesa, do texto, para João Mota “uma escolha pertinente” no mundo atual, em que “as aristocracias definham e a classe operária desapareceu com o fecho das grandes fábricas, como a Lisnave”, reduzindo a sociedade à classe média – mais ou menos endinheirada. Conhecemos, pois, o contexto, embora a peça tenha mais de 100 anos, tendo sido estreada em 1911, pelo que é fácil deixarmo-nos levar pela história deste político de direita, “que vive de favores, preconceitos e fachadas, como todos atualmente, num tempo em que faltam bons exemplos, como já tivemos, de Sá-Carneiro a Maria de Lourdes Pintasilgo”. É quase certo que, após o que testemunhamos, a sua carreira acabe: afinal, a mulher não acata o pedido dele para se arranjar, insistindo em andar seminua pela casa, seja à frente do filho – o que é impróprio, pois “já tem 13 anos”, aponta o marido –, do mordomo ou de visitas como um autarca viscoso (Luís Garcia, de peruca e barba postiça) ou um jornalista (Miguel Sermão). “Ela é ingénua, até parece tonta, mas na verdade é uma provocadora, que se recusa a obedecer ao marido, o que na época era revolucionário. De certo modo, é precursora da emancipação feminina”, defende João Mota, sublinhando que em Não Andes Nua pela Casa, que estará na Comuna até 18 de dezembro, prometendo muitas gargalhadas, está também “o nonsense, que é a base do teatro do absurdo, que marcou o século XX, 50 anos depois, com Beckett e Ionesco”. Ou seja, embora escrevendo comédias de vaudeville, consideradas comerciais e não eruditas, “Feydeau foi um pioneiro, importantíssimo na História do teatro, e é preciso mostrá-lo”. ●

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