NOVOS GANGUES E MUITA DROGA À VISTA

Há cada vez mais traficantes e também rixas pelo domínio do tráfico de drogas. Fomos ver o queestá a acontecer no mais importante centro turístico de Lisboa.

Por Raquel Lito e Mariline Alves (fotos)

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

Cofina

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Sociedade

Ainda nem são 21h30, chuvisca e percorre-se o Bairro Alto sem encontrões. Há quem chegue àquela hora de quarta-feira e não é para jantar ou beber uns copos. São traficantes, aparentam ter mais de 20 anos e o semblante é fechado. Alguns cochicham entre si, em pequenos grupos, vêm das periferias de Lisboa – quer da linha de Sintra, quer da Margem Sul. Encostam-se às esquinas, observam quem passa; sobem e descem a calçada, irrequietos. Um deles aborda-nos: “Haxixe, haxixe, 20 euros. Tenho aqui coisa boa, espera aí que vou buscar.” Rejeitamos. O dealer não insiste e continua a deambular pelas ruas estreitas. Decerto abordará outro transeunte, porventura turista, ingénuo e alcoolizado. O negócio prolifera a cada esquina, na via pública junto aos bares e restaurantes. Vendem canábis, cocaína, ou, simplesmente, falsificações a preços inflacionados. “No Bairro é banhada, quase sempre é falso ou marado”, queixam-se consumidores ao psiquiatra Luís Patrício. O especialista no tratamento de dependências reforça: “É comum as pessoas referirem que a canábis e a coca, que se arranja no Bairro, são um engano. Qualquer consumo de substâncias de origem desconhecida, ou a mistura de substâncias potenciam riscos para a saúde. A maioria dos consumidores, ditos festivos, faz policonsumo.” Momentos antes de sermos abordados pelo traficante, uma empresária de um espaço de diversão noturna, na zona, denuncia à SÁBADO a “pseudococa” (farinha e relaxante muscular): “Quando as pessoas põem aquilo na boca, ficam dormentes. Acham que é efeito da coca. Costumo avisar os clientes do meu espaço para não comprarem nada na rua.” As imitações de haxixe, ou “xixa” (quando abreviam o nome), passam por caldos alimentares e louro prensado, segundo várias fontes e entidades contactadas pela SÁBADO, preocupadas com o agravamento do tráfico destas misturas e das drogas (segundo a PSP, as mais vendidas são haxixe, liamba, cocaína, heroína, MDs, Ecstasy). Sobre as drogas sintéticas, Sara (nome fictício) admite o consumo abusivo. Perto dos 35 anos, desde os 15 que frequenta a zona. É ela que procura os traficantes e pergunta se têm haxixe – só para começo de conversa. Na verdade, procura substâncias psicoativas, pastilhas e ácidos. “Se a pessoa não tiver, indica-me outra.” Nem sempre têm os produtos em sua posse, podem estar escondidos: “No meio das árvores, nas plantas, nas flores, por baixo de um carro.” A consumidora não dá relevância aos valores (fala em €10 por pastilha), mas aos efeitos: “Pessoas que não conheço, à minha volta, fazem-me muita confusão. Começo a discutir.” As paranoias e os ataques de ansiedade sucedem-se, a ponto de sentir “pontadas”, dificuldade em respirar e dormir. “Como tenho a cabeça cheia, fico muito depressiva.” Está a tentar parar o consumo e afastar-se do Bairro Alto: “É demais.” Rivalidades entre gangues Houve noites em que Sara recorda que “curtiu bué” no Bairro Alto, até amanhecer, outras correram mal devido às rivalidades entre gangues: “Com certas pessoas há problemas, às vezes porrada, outras só bate-boca. As mulheres também se metem.” No caso delas, nada tem a ver com intrigas ou ciúmes. Envolvem-se em desacatos por causa de drogas, em defesa deles. A consumidora exemplifica: “Imagine: vou ter com um rapaz, começo a discutir com ele porque não me deu o que queria, ou não me serviu bem. Ele vai falar com a namorada para falar com a cliente.” Aqui, falar equivale a estaladas e puxões de cabelos. As rixas tornaram-se evidentes desde setembro de 2021, quando terminaram as restrições da pandemia e as autoridades confirmaram o homicídio de um indivíduo com rabo de cavalo, esfaqueado cinco vezes, na madrugada de dia 11 desse mês, no Bairro Alto. O controlo territorial pelo tráfico poderá, eventualmente, estar associado. Numa primeira fase, a SÁBADO apurou que grupos suspeitos ameaçam neste registo: “Estou aqui nesta zona, quem manda sou eu. Tu não estás aqui a fazer nada.” Uns traficam quase por desporto, porque gostam “de mexer na droga”, dizem fontes próximas. Outros têm um exemplo em casa, o negócio passa de geração em geração. Outros, ainda, fazem-no à laia de trabalho extra, levando, durante o dia, um quotidiano aparentemente normal. Não se inibem de abordar clientes nas esplanadas, quando faz bom tempo. Vários empresários do ramo da restauração, representados pela Associação de Comerciantes do Bairro Alto (ACBA), queixam-se disso mesmo. O dirigente associativo, Hilário Castro, detalha: “Quando os vejo, peço que se retirem. Fazem ameaças de esperas, há situações em que intimidaram os colegas [da área da restauração] com perseguições.” Os turistas ficam estupefactos com a abordagem dos traficantes, mas sendo tão frequente, “às tantas pensam que é normal e legal o consumo”, prossegue Hilário Castro. Paulo Cassiano, presidente da assembleia-geral daquela associação, revela que muitas vezes os vê à porta do seu restaurante, Bota Alta, e recorre à diplomacia: “Chego ao pé deles e digo-lhes: ‘Não me estragues o negócio.’ Já nos conhecemos. A maior parte nem droga vende, alguns estrangeiros vão à esquadra fazer queixa porque pensam que a droga é legal e sentem-se enganados.” Segundo os dois dirigentes, a situação também piorou pela deslocalização de traficantes da zona da Bica para o Bairro Alto: “Trouxe pessoas mais experientes [no tráfico]. Face às suas características, o Bairro Alto é um local atrativo para este tipo de atividade, acrescido pelos milhares de turistas que muitas vezes não sabem nem conhecem as pseudodrogas.” À medida que a noite avança, as enchentes nas ruas com shots (€1,50 cada) ou grandes copos de cerveja (€5 por 500 ml) circulam alegremente. Há muita oferta, até com publicidade ambulante – uma jovem passeia-se com uma seta a anunciar gin e mojito a €6. Desinibidores legais, mas cujo consumo abusivo se torna perigoso. O alerta é dado pelo psiquiatra Luís Patrício, que analisa os comportamentos in loco junto à SÁBADO: “Vê-se muita gente bem tocada e alguns manifestamente embriagados. Uns ficam um pouco mais relaxados ou eufóricos, outros agressivos ou paranoicos, também de acordo com as substâncias consumidas. Em espaço aberto veem-se muitos com álcool e canábis.” Em consulta, há quem lhe diga levar substâncias sintéticas, numa garrafa, diluídas em água ou sumo. “Neste caso não é usual consumirem álcool, fumam tabaco ou canábis.” A concentração é maior na Rua da Atalaia, onde, já depois das 23h, duas estrangeiras dançam na via pública. À porta de cada bar, há um segurança – antes só vistos no Cais do Sodré. A segurança privada chegou ali há cerca de ano e meio, apesar de a zona estar abrangida pelo sistema de videovigilância, gerido pelo Comando Metropolitano da Polícia de Segurança Pública (PSP) e revalidado recentemente até 2025. “Os comerciantes dos bares da Rua da Atalaia recorreram a seguranças privados para resolverem a insegurança que tem aumentado nos últimos meses”, esclarece Hilário Castro. Trava-se a pequena delinquência, leia-se furtos de telemóveis ou carteiras dentro de portas, por vezes praticados pelos ditos traficantes. “Turismo etílico” e medo David Vieira, segurança, explica à SÁBADO a seleção: “A função é filtrar pessoas para que haja um convívio melhor na casa. Quando um dealer não entra, a probabilidade de roubo é menor.” Após seis meses em funções num bar daquela rua (Chez Atalaia), reconhece quem é quem e afasta os suspeitos. “Falo com eles calmamente, digo-lhes que ninguém quer ser abordado.” Previne confusões, garante, mas vê coisas preocupantes na rua: “Já vi desacatos entre eles [gangs], um que costuma passar nesta rua já foi esfaqueado. Não permanecem muito na zona. Estão cá dois ou três meses, têm um conflito e desaparecem.” Numas portas abaixo fica o Capela, clássico dos tempos em que o Bairro era destino de artistas. Pedro Silva, o dono do bar, realça: “A presença e ação dos seguranças privados acaba por ajudar a polícia. Coexistem bem e ambos reconhecem a importância mútua.” Na noite em que a SÁBADO percorreu o Bairro Alto ainda se cruzou com uma rápida ronda da PSP, sem alaridos. O Bairro Alto sempre foi sinónimo de boémia, mas os moradores e comerciantes mais antigos dizem-nos que agora está mais descaracterizado pela venda de bebidas low-cost. A presidente da junta de freguesia da Misericórdia, eleita pelo PS, Carla Madeira fala até em “turismo etílico”. “O consumo excessivo de álcool pode conduzir ao consumo de outras drogas. Notamos um aumento da criminalidade e de posturas mais agressivas por parte de grupos de visitantes. Não conseguimos afirmar que se deva ao aumento de traficantes, mas acreditamos que seja consequência do aumento de consumo de álcool e de estupefacientes.” Diz já ter alertado a autarquia para a falta de fiscalização e para o incumprimento do regulamento municipal de horários por parte dos estabelecimentos. Por sua vez, o gabinete do vereador Ângelo Pereira (com o pelouro da segurança) esclarece à SÁBADO que a polícia municipal faz fiscalizações nas noites de sexta e sábado: “Visam prevenir e reprimir comportamentos ilícitos por parte dos estabelecimentos e dos utentes dos mesmos, garantindo o cumprimento dos requisitos legais.” De janeiro de 2022 até novembro, conta que das operações noturnas na zona resultaram os seguintes números: 2.596 estabelecimentos fiscalizados; 427 por ruído (335 autuados); 64 multados por incumprimento de horários e 160 por falta de limitadores de som. Ainda assim falta patrulhamento, segundo reportam à SÁBADO comerciantes e moradores. Hilário Castro, da ACBA, sugere a presença policial fixa, fardada – “de forma a garantir que os ajuntamentos não permaneçam nas ruas”. Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores da Misericórdia diz que os moradores (3.500, sendo um terço idosos) temem deslocar-se até casa, cruzar-se com um traficante ou consumidor à porta do prédio. “Se pedem para se afastarem, as reações em muitos casos são de frases intimidatórias. Temos casos de ameaças a pessoas idosas ou fragilizadas.” Os residentes com filhos têm um medo acrescido, diz: “Que os filhos entrem neste tipo de consumos.” Com tantos alertas e perigos, Hilário Castro nota que tem aumentado a fiscalização, nos últimos meses, por parte da PSP, “tanto de elementos à civil como fardados”. O Comando Metropolitano de Lisboa da PSP revela à SÁBADO que as ações policiais de patrulhamento e de investigação “são desenvolvidas diariamente” e que o número de agentes envolvidos varia. “Depende da dimensão e dos objetivos da operação. Envolve polícias da patrulha, do modelo integrado de policiamento proximidade, da intervenção rápida, de ordem pública e da investigação criminal.” Mesmo assim, quando têm medo os moradores telefonam, segundo Luís Paisana: “Mas não formalizam queixa, porque é tarde e não vão sair de casa para ir à esquadra.” ●

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