A PIONEIRA QUE VAI GERIR OS MILHÕES DO FOMENTO

Vem da elite luso-chinesa, salvou a emissão de Gabriela na crise e chegou ao topo na masculina área da banca. Dar a volta ao novo banco público será o seu último desafio.

Por Bruno Faria Lopes

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

Cofina

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Dinheiro

Odiretor da RTP entrou pelo gabinete de Celeste Hagatong com um pedido em tom de ultimato: “Ou me passa um cheque ou hoje vai haver uma revolução!” Hagatong, na altura com 25 anos, precisava de ter mão firme no dinheiro. O ano é 1977 e Portugal está numa crise profunda, sob assistência do FMI e a contar tostões para pagar os cereais e os combustíveis que importava. Mas o administrador da televisão pública tem um argumento de peso: o cheque é para pagar a dívida à brasileira Globo, a produtora da telenovela Gabriela. Nesse dia chegava o voo da Varig que trazia a cassete com novos episódios da telenovela, e os brasileiros só a entregariam se houvesse um pagamento. No Portugal pós-revolução, o êxito estrondoso da adaptação do romance de Jorge Amado influenciava os penteados das mulheres e os bigodes dos homens – fazia até mexer as horas das sessões parlamentares, para que os deputados não perdessem pitada da novela. A jovem Hagatong, já influente na Direção-Geral de Tesouro e Finanças, percebeu e acabou por libertar o cheque. Não houve revolução. Celeste Hagatong gere dinheiro há quase meio século e prepara-se para o que, aos 70 anos, encara como a última grande etapa na sua carreira: a presidência do até aqui atribulado Banco Português de Fomento. A instituição pública criada há dois anos para expandir muito o financiamento às empresas tem sido alvo de problemas repetidos, do atraso na sua criação à não nomeação do presidente Vítor Fernandes (parte da equipa que concedeu maus créditos na Caixa e alvo de buscas judiciais na Operação Cartão Vermelho), passando pela demissão da administradora responsável pelo risco, com fontes anónimas

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