AS CARTAS QUE FIZERAM NASCER O PS

Documentos até agora inéditos contam como se começou a construir o partido em 1962, ainda antes de surgir Mário Soares. E quem se lembrou de o juntar ao projeto.

Por Margarida Davim

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

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Cofina

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Portugal

As cartas inéditas que deram origem ao PS Oregime parecia, finalmente, tremer. Manuel Alfredo Tito de Morais estava no exílio no Brasil, depois de uma prisão em Angola, e via os sinais: em novembro de 1961, o desvio de um avião da TAP para lançar folhetos contra a ditadura de Salazar sobre Lisboa e a Margem Sul do Tejo; o assalto ao quartel de Beja na passagem de ano logo a seguir, numa tentativa frustrada de golpe de Estado; e em março a explosão da guerra colonial em Angola. Tito de Morais sentia que era preciso avançar rapidamente para criar um partido que reunisse todas as oposições ao Estado Novo que não se reviam no Partido Comunista. O plano que gizou é o primeiro esboço do que viria a ser o Partido Socialista (PS). A 8 de junho de 1962, Manuel Tito de Morais resolve pôr no papel toda a estrutura em que deverá assentar a criação de um Partido Socialista, descrevendo todos seus órgãos e os passos a dar até à realização de um primeiro congresso, as formas de procurar financiamentos e até a elaboração de um “programa mínimo transitório de Governo” já a pensar na “instauração de um regime democrático no País”. Como Soares se junta à ideia Escreve “ao correr da máquina”, confessa na carta enviada ao amigo Francisco Ramos da Costa que, como ele, está no exílio, mas em Paris e desvinculado do PCP desde 1950. É notório o sentido de urgência das linhas que envia de São Paulo. “És a primeira pessoa a quem escrevo sobre este assunto e como considero muito importante a tua opinião, agradecia que me respondesses o mais rapidamente possível, lembrando-te de que uma carta leva seis a oito dias a cá chegar.” Ramos da Costa não tarda a dar resposta. Na volta do correio, a 15 de junho, segue a sua carta para o Brasil. Aceita manter o sigilo pedido por Tito e acrescenta-lhe cautelas por ser “um assunto demasiado melindroso para trazer à conversa fiada destes políticos aprendizes que por aqui proliferam”. Uma só exceção: o tema devia ser debatido com Mário Soares, que Ramos da Costa entendia ser ideal para ajudar a pôr em prática a criação desse novo partido. “Parece-me que o Mário virá dentro de pouco ao estrangeiro e seria ótimo, porque trocaríamos impressões sobre este magno problema. Aliás, muito do seu agrado. Consegui arranjar-lhe um bom cliente em Itália que pagará a deslocação, no entanto há que contar com qualquer surpresa de impedimento por parte da PIDE, o que não seria de estranhar”, escreve o dissidente comunista. Mário Soares era um velho conhecido de Tito de Morais. Encontraram-se pela primeira vez em 1945, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, quando a oposição a Salazar tinha a esperança de ver cair o ditador com o fim de Hitler e Mussolini. Tito era filho de um dos revolucionários do 5 de Outubro e amigo do pai de Soares. “Só tinha razões para simpatizar com ele e

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