Entrevista

Nomeado um dos 100 pensadores políticos mais importantes pela Foreign Policy, dá formação a Presidentes, ao FBI e aos militares. Diz que a Rússia pode mudar ou cair no caos, após a guerra.

Por Vanda Marques

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

2022-11-24T08:00:00.0000000Z

Cofina

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Sumário

Analista político, Robert D. Kaplan fala sobre o futuro da Rússia Quando Bill Clinton foi visto com o livro de Robert D. Kaplan debaixo do braço, muitos analistas apressaram-se a concluir que tinham sido as palavras do jornalista a convencer o então Presidente dos EUA a não entrar na guerra dos Balcãs. Mais tarde, em 2001, George W. Bush quis ouvi-lo, mas o analista político diz que ser conselheiro não é o que procura. “É uma consequência do meu trabalho. Num livro tens 100 páginas para te explicares, mas quando te sentas numa sala com políticos eles querem a conclusão – só que a simplificação é o que faz com que haja problemas”, diz em entrevista a propósito do livro A Vingança da Geografia. Robert D. Kaplan, autor de 26 livros, foi assessor do departamento de Defesa dos EUA e alerta que não podemos “ignorar o óbvio da geografia”. O que é a vingança da geografia? Quando a guerra fria acabou, tivemos uma euforia nos anos 90 de que a democracia se ia espalhar pelo globo, de que não existiam mais grandes lutas pelo poder, de que a América era um poder unipolar e por inferência a geografia não importava. Só que depois começamos a ver uma reversão com as dificuldades nas guerras nos Balcãs nos anos 90, ou como a geografia do Iraque derrotou os EUA... Por exemplo, Taiwan está a 100 milhas [cerca de 160 km] do continente chinês. Se estivesse a 20 milhas teria sido conquistada pela China há 60 anos. Por outras palavras, para se perceber a importância da geografia – achamos que a guerra na Ucrânia não tem nada a ver com isso? Não. No prefácio do livro tem uma citação de Henry Adams, do início do século XX, que diz: “O problema central da Europa era e seria sempre a Rússia e o modo de integrar finalmente a Rússia no ‘consórcio atlântico’.” Pode explicar? Henry Adams, bisneto do Presidente John Adams, era um jovem diplomata na Europa nos anos 1900. Em 1905, disse que a Europa seria deter minada pela Rússia e que esse era o principal problema da Europa, porque a Rússia é muito grande, demasiado eurasiana para ser absorvida pelas democracias arrumadinhas. A Europa terá sempre um problema com a Rússia e o objetivo será como integrar a Rússia e trazê-la para o consórcio atlântico. Vimos isso na I Guerra Mundial, porque a primeira grande guerra foi em Tannenberg, entre a Alemanha e a Rússia e isso conduziu ao fim dos czars e à revolução russa. Na II Guerra Mundial, as grandes batalhas foram entre Alemanha e a URSS. Depois temos guerra fria – era tudo sobre a Rússia. A seguir, tivemos uma interrupção histórica, porque a Rússia estava num estado de semianarquia nos anos 90. Mas depois... o Putin. Como descreve Putin, que começou por ser visto como moderno? Putin chegou ao poder em 2000/01 porque a classe média foi destruída pela política de Ieltsin, que eu batizo como democracia alcoólica. As pessoas não tinham autoestima, o sistema de pensões foi destruído, o sistema soviético colapsou. Nos primeiros anos, Putin era popular, porque devolveu aos russos a sua dignidade, estabilizou as coisas e havia a esperança de que ele se transformasse num liberal. Mas o que acontece muitas vezes com ditadores é que o seu instinto inicial é fazer reformas, mas depois percebem como é difícil e perigoso, porque pode levar ao colapso de tudo e à sua própria morte. Ele tornou-se num autocrata e o sistema evoluiu para um Estado militar de vigilância não tão bem institucionalizado como a China. Não se pode esquecer: se Xi Jinping adoecesse amanhã, a China não cairia em anarquia, elegeriam outro líder. A Rússia é diferente. O que aconteceria? Não sei. Acho que ninguém sabe. Putin tem mais poder individual do que qualquer líder desde Estaline. Ele eliminou toda a oposição e cercou-se de gangsters, de oligarcas e de oficiais dos serviços secretos, que se odeiam.Q Putin cai, a Rússia fica no caos? Sim, no pior cenário pode transformar-se numa versão light da antiga Jugoslávia. Se o Czar não tivesse sido derrubado em 1917, a Rússia teria evoluído para uma monarquia constitucional fraca, semiestável, corrupta, sem o terror da fome ou os gulag. Tal como se o Xá não tivesse sido derrubado, o Irão seria como a Coreia do Sul. Quando se derruba um rei, recebe-se por resultado o inferno. Porque é que Putin invadiu Ucrânia? Ninguém diz a verdade a Putin. Ele até pode ter perguntado: “Vamos ganhar a guerra?” E a resposta foi: “100% de certeza que ganhamos.” É um mistério. O Presidente Eisenhower tinha um sistema contra estas situações: quando tinha uma decisão difícil e precisava de ouvir os conselheiros e especialistas, ele nunca dizia o que pensava. Ouvia tudo primeiro. Como era o Presidente sabia que a tendência natural seria concordarem com ele. Se Putin tivesse este sistema nunca teria invadido a Ucrânia. Há risco de usar armas nucleares? Não. Mas é sempre bom preocuparmo-nos com isto, é o que os líderes fazem. É o que a equipa de Biden faz – preocupam-se incessantemente com isto, porque é assunto de pouca probabilidade e de consequências elevadas. Não entendo o que Putin ganha com o nuclear para melhorar a sua situação no campo de batalha. Acho que ele pode falar disso para deixar o Ocidente nervoso, e pode usar táticas de guerra não convencionais, como explodir pipelines e cortar o acesso ao gás natural, talvez ciberataques. Nuclear? Não. E o incidente na Polónia? Quando uma bomba caiu junto da fronteira e matou duas pessoas? Um normal acidente da guerra. Tens mísseis, depois contramísseis, que são comandados por computadores e que mais tarde ou mais cedo vão cair do outro lado da fronteira. Foi o que aconteceu e por esse motivo não houve resposta da administração Biden. Não vão meter a NATO numa guerra por causa de um acidente. Se não fosse um acidente, a guerra ia mudar? As coisas iam mudar. Agora, se Putin detonar uma arma nuclear pequena, os EUA e a NATO vão responder com outra nuclear? Não. Será que responderiam com um ataque convencional à frota do mar Negro? Talvez. Mas o ponto é que quando se responde, complicam-se as coisas. Depois há a contrarresposta e a contracontrarres-posta. Tem de se pensar cinco passos à frente nestas situações. O que se ganha com as respostas? Esta é a maior guerra desde a batalha de Berlim na II GM, mas o objetivo é ser uma guerra limitada, sem os EUA entrarem na Rússia. É basicamente lutar até ao último ucraniano. Enquanto os ucranianos estiverem dispostos a lutar, os EUA e a Europa vão apoiá-los. Pode demorar muito tempo, meses... não sei. Lenine tinha uma grande frase: “Podem passar décadas sem nada acontecer, depois semanas passam e décadas acontecem.” É nesse ponto que estamos – concentrados no campo de batalha da Ucrânia e a ver que efeito político tem em Moscovo. O que pensa a China desta guerra? Os chineses são grandes estudantes da guerra e pode-se ter a certeza de que estão a estudar esta. Vai torná-los mais cautelosos e espertos para os seus planos em Taiwan. Penso que a China preferia que Putin não tivesse começado esta guerra, mas os chineses apoiam-no. Além disso, a China agora tem gás mais barato. A Europa sai mais forte? A Europa vai precisar de um novo sistema de segurança, porque temos uma guerra no Leste, que pode levar a uma mudança de regime e que pode conduzir ao caos na Rússia ou à democracia. A Europa nunca quis a Ucrânia na UE, nem na NATO, porque era um Estado muito corrupto, semidesenvolvido, agora não tem escolha. A NATO expandiu-se para a Finlândia e Suécia, tem uma relação com a Ucrânia e isso vai levar a NATOs diferentes. E não se pode esquecer o Sul – porque o Norte de África, a África a subsariana, a emigração... A demografia? Não gosto de usar a palavra ameaçar a Europa, mas basicamente a migração está a desafiar a Europa. O populismo na Europa é um fenómeno antiemigraçao. Tirando-se esse problema, não há populismo. Mas os migrantes encontram uma forma de entrar – é o que a História nos ensina. Não se pode apenas fazer uma lei e mantê-los de fora. Enquanto a emigração for um fenómeno, os populistas vão ter algum apoio. Trump, um populista, vai recandidatar-se. Pode ganhar? Não. Ele está muito mais fraco. Os republicanos toleravam-no porque achavam que ele lhes dava vitórias, mas na última eleição perdeu. Já tivemos mais demagogos na História americana, como o senador McCarthy, que duram uns anos e depois desaparecem. Trump era um populista extremista e trazia temas que a elite tentava esconder. Por exemplo, quando Trump dizia: “A China está a comer o nosso almoço.” O populismo joga com o medo. Como vê o mundo agora? Muito tumultuoso. A dada altura vamos ter uma alteração de poder em Moscovo. Veja-se o Irão, por 40 anos nunca imaginamos outro regime sem os aiatolas, agora veem-se mudanças. ●

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