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Sábado - 2021-11-25

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A FLORESTA DOS MURMÚRIOS

Mundo

Tiago Carrasco Enviado especial à Polónia

De noite, sem lanternas, com roupa escura para garantir que passam despercebidos, há polacos a correr riscos para tentar ajudar os refugiados perdidos na floresta Há sons que naturalmente irrompem no silêncio da floresta escura: as folhas sacudidas pelo vento gélido, o ranger dos galhos ou a voz de animais ocultos pela penumbra. Porém, o barulho que ecoa ao início da noite numa mata nos arredores de Hajnówka, uma pequena cidade polaca a 20 km da fronteira com a Bielorrússia, não é natural. São os discretos assobios e murmúrios – “Salam”, [olá, em árabe] – de Kasia Wappa, 40 anos, uma professora de inglês que há dois meses se transformou em assistente humanitária na clandestinidade, de forma a resgatar imigrantes e refugiados escondidos em pântanos e pinhais da floresta de Bialowieza. “O Governo polaco não autoriza a ajuda humanitária na fronteira e criminaliza como ‘auxílio à imigração ilegal’ as ações de todos aqueles que, como eu, decidem fazer alguma coisa”, diz. “Há guardas fronteiriços, polícia e militares por todo o lado. O risco é elevado, mas eu não conseguiria ficar parada sabendo que homens, mulheres e crianças estão a morrer à minha porta sem qualquer amparo.” A pacata vida de Kasia foi abalroada por um acontecimento inesperado. O ditador bielorrusso Alexander Lukashenko decidiu vingar-se da Polónia, por esta acolher os seus opositores internos, e da UE pelas sanções impostas ao seu regime por suspeitas de fraude eleitoral e violações dos direitos humanos. Escolheu um método sádico: promoveu e facilitou viagens aéreas a partir essencialmente do Iraque, da Turquia, da Síria e do Líbano, aliciando os viajantes com facilidades na obtenção de visto e apoio na passagem para a Polónia ou para a Lituânia. A partir de meados de outubro, milhares de imigrantes aglomeraram-se na raia fortificada entre a Bielorrússia e a Polónia. Os guardas polacos não os deixaram passar e os bielorrussos não permitiram que voltassem para trás. Encurralados entre as duas vedações, vários grupos improvisaram acampamentos e forçaram a entrada ilegal pelo meio da floresta primitiva, expostos ao rigoroso inverno e a deportações sumárias se intercetados. “Temos de os descobrir antes dos guardas. Eles que apareçam quando virem uma mulher com um cão”, diz Kasia, ao telefone, ao receber da rede informal de voluntários um pin com a localização de três imigrantes que tinham conseguido progredir até Hajnówka. Enfiou cobertores, casacos quentes e botas de inverno num saco e encheu uma mochila com comida e garrafas de água, antes de entrar no carro com a sua cadela, Inca, e conduzir até ao ponto de encontro. “Temos de ter cuidado porque naquela zona concentram-se nacionalistas que ajudam a polícia a apanhar os refugiados”, diz. “É muito importante ser discreta.” As intervenções de resgate humanitário na floresta têm regras: é de evitar roupa clara para não se ser visto à distância, a luz dos telemóveis deve ser muito ténue e é aconselhável ter um álibi preparado. O de Kasia é passear Inca. De olhos postos no GPS, a ativista vira à direita para o labirinto de troncos finos. Quando avista os faróis de um carro, agacha-se no mato e vira as costas à estrada, para se camuflar na escuridão. Assobios. Murmúrios. Durante meia hora, nada. Não desiste. Por fim, um assobio de resposta. Passos a estilhaçar folhas e ramos. “Salam!” Três vultos surgem do breu como fantasmas: “You, police?”, pergunta um, nervoso. Kasia pede calma: “Estou aqui para vos ajudar, não tenham medo. Há quanto tempo não comem nem bebem?” “Estamos a andar há uma semana e não comemos nem bebemos há dois dias”, respondem. A polaca abre a mochila e passa-lhes uma garrafa de água. Medo e morte O governo polaco liderado pelo primeiro-ministro Mateusz Morawiecki criou um cordão de segurança ao longo dos quase 400 km de fronteira com a Bielorrússia. Ninguém consegue aproximar-se a menos de 3 km da linha administrativa, criando um vazio de informação e de cuidados básicos às vítimas. A propaganda oficial de Varsóvia é clara para Kamil Syller, 48 anos, um advogado da capital que há seis anos veio à procura de descanso para a região de Bialowieza: “Eles querem passar a mensagem de que a Polónia tem capacidade para proteger as suas fronteiras e que não precisa de nenhuma ajuda para derrotar Lukashenko e mandar os imigrantes de regresso a casa”, diz. “A popularidade do governo está a crescer e só isso lhes interessa. Por isso, os seus ataques não são dirigidos a Lukashenko, mas às vítimas indefesas do seu jogo político”. Conhecedor das leis, Kamil é dos poucos locais que assume publicamente ajudar os refugiados. “Não há nenhuma lei que me penalize por prestar assistência a alguém em risco de vida – e, sim, estar na floresta com este frio é ter a vida em risco –, pelo contrário, o que é crime é negligenciar essas situações”, afirma. Quando os primeiros grupos de deslocados começaram a surgir nas imediações da sua casa – onde normalmente só pastavam bisontes e alces –, apercebeu-se de que não sabiam em quem confiar. Assim, promoveu a iniciativa Luz Verde: “Todos os lares disponíveis para ajudar devem montar uma luz verde à porta”, explica. “É uma mensagem de solidariedade mas também de resistência às políticas desumanas do governo.” Porém, acenderam-se mais luzes verdes em Varsóvia e Cracóvia, as maiores cidades, do que nas aldeias fronteiriças. Ali, impera o medo. Os ativistas estão especialmente preocupados com as deportações ilegais. À luz da lei europeia, a Polónia estaria impedida de repatriar estrangeiros para países que não respeitem os direitos humanos. A Human Rights Watch é inequívoca: “A Bielorússia não é um país seguro.” No entanto, o governo polaco aprovou em outubro uma lei que acelera as deportações e que Varsóvia diz sobrepor-se à regulação de Bruxelas. A autoridade fronteiriça tem recambiado automaticamente quase a totalidade dos requerentes de asilo e até aqueles que tiveram de receber assistência nos hospitais polacos. Só no passado fim de semana, a Polónia devolveu mais de 600 pessoas à Bielorrússia. Há casos documentados de deportações de mulheres e crianças e de pessoas atiradas oito vezes de volta para o lado de Minsk. As agências humanitárias polacas dizem que 13 estrangeiros sucumbiram ao frio e à escassez de alimentos na fronteira. O iemenita Mustafa Mohammed al-Raymi, de 37 anos, foi enterrado no passado domingo no cemitério islâmico da pequena localidade de Bohoniki, onde uma comunidade tártara da Crimeia e da Chechénia – que ali se instalou no século XIV – assumiu a responsabilidade de organizar cerimónias fúnebres das vítimas da penosa travessia. “Quando fizemos o primeiro enterro pensei que ele ia ficar aqui sozinho a descansar em paz”, diz Maciej Szczesnowicz, o líder da comunidade, olhando para as três campas recentes alinhadas. “Agora receio que tenhamos de cavar mais túmulos.” Já há mais dois funerais agendados para esta semana. Insensível a esta realidade, duas horas após o enterro, um grupo de nacionalistas juntou-se na cidade de Bialystok para agradecer publicamente o trabalho da polícia de fronteira. “É óbvio que estas pessoas não são refugiadas e que, por isso, podem ser devolvidas à Bielorrússia. Não existe nenhuma guerra em Minsk”, afirma à SÁBADO Robert Winnicki, líder do partido nacionalista Confederação do Movimento Nacional. “Prestar-lhes ajuda humanitária significa alinhar no jogo criminoso de Lukashenko.”

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