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Sábado - 2021-11-25

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“O CRIME NO QUARTO SETE”

Pasatiempos

AUTOR BÚFALOS ASSOCIADOS

O INSPETOR GARRETT SABIA POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA COMO É PERIGOSO APONTAR INTUITIVAMENTE UMA SOLUÇÃO BASEADA EM APARÊNCIAS, sem uma análise mais aprofundada do problema. Muitas vezes o investigador fica agarrado a uma primeira ideia, sem conseguir depois libertar-se daquilo que desde o início lhe pareceu indiscutível, e que afinal pode ser puro engano. Ou não... “O caso do CRIME NO QUARTO SETE apresentava três suspeitos principais, ou seja, os três hóspedes que, nessa noite, pernoitaram na pensão Mar À Vista: Rogério Cunha, o atleta, no quarto 1; Torcato Silva, o angariador de seguros, no quarto 3; e José Lopes, o caixeiro viajante, no quarto 14. Todos os quartos virados a nascente. O corpo do senhor André foi encontrado na cama do seu quarto 7, com janela voltada para poente. Tivemos notícia do animado jantar entre os quatro, em que se deve ter bebido bem, talvez a ponto de exaltar alguns ânimos. Temos um único testemunho, o da empregada Vera que, por se ter esquecido de qualquer coisa, teve de voltar cerca das 10 horas, e afirmou que só estava um conviva com o patrão, talvez os outros dois tivessem ido já deitar-se. Mas a conversa entre os dois presentes era bastante exaltada. A ponto de ter ouvido o senhor André, aos gritos, gabar-se de “ter violado a mulher do outro interlocutor”. Se procurarmos um motivo para o insólito assassinato do dono da casa, aí o temos: um ajuste de contas por parte do marido de uma esposa ultrajada. Mas qual dos três poderá ser o marido vingador? A noite estava insuportavelmente quente e as janelas só podiam estar abertas. E era aberta que estava naturalmente a janela do quarto 7, quando a GNR chegou. A porta do quarto estava fechada à chave, e a chave poisada na mesa de cabeceira. Logo estamos em presença de um problema de quarto fechado, mas de janela aberta. Ou seja, deve ter sido pela janela que o assassino terá entrado e saído após o crime. Mas o quarto 7 situa-se no segundo piso, a uma considerável distância do chão e com acesso complicado. De resto, a faca, a suposta arma do crime, com vestígios de sangue, foi encontrada caída do lado de fora da janela, o que pode indicar ter sido atirada pelo assassino após o “trabalho”. Repare-se agora que a polícia foi encontrar ausentes no chaveiro da pensão, além das chaves dos quartos ocupados, também, estranhamente, a chave de quarto número 6, aquele que fica exatamente por baixo do quarto do crime. Portanto, parece não haver outra explicação para a ausência da chave do 6, senão a possibilidade de alguém, com qualidades atléticas, ter usado o quarto 6 para, trepando de uma janela para a outra imediatamente acima, ter chegado ao quarto do senhor André. Só que terá cometido o fatal erro de não ter devolvido a chave do 6 ao seu poiso habitual. Se calhar ficou mesmo esquecida na respetiva porta. Então, sabendo que as três esposas já em tempos tinham sido hóspedes da pensão, salta à vista que, dos três suspeitos, só um parece ter as aptidões físicas para trepar pelo exterior da casa, de uma janela do piso térreo para outra do andar superior. E esse seria naturalmente o Rogério Cunha, atleta experiente e praticante de surf. E assim ficamos com a suspeita muito pertinente sobre quem possa ter sido o assassino, num impiedoso ato justiceiro. O quarto do Rogério fica mesmo ao lado da receção onde estará o chaveiro para o acesso à chave 6. Difícil, sim, mas não impossível, terá sido a escalada noturna. O erro fatal terá sido deixar algures, esquecida, a chave comprometedora.” O inspetor Garrett fez uma pausa e continuou: “Mas cuidado com as aparências. Até aqui tudo indica que terá sido o Rogério o assassino. Mas cuidado com as primeiras impressões. Vejamos se não haverá outras hipóteses. Lembremo-nos que há duas empregadas, e uma delas, a Vera, tão solícita a dar informações tão íntimas. Não é de desconfiar? Claro que qualquer das empregadas não precisava de ir ao chaveiro tirar a chave do 6, nem de trepar janelas para chegar ao quarto 7. Haverá certamente um chaveiro de serviço com chaves suplentes de todas as portas, incluindo a do 7. E, se pensarmos que o senhor José não tem família, é bem possível que possa ter feito testamento a favor de alguma das empregadas com quem parece ter tão boas relações. Assim não podemos afastar, para já, a possibilidade de a conversa que a Vera disse ter ouvido, ter sido inventada por ela com a intenção de se descartar das culpas do crime que cometera. O truque da chave 6 esquecida faria parte de uma encenação elaborada pela Vera, destinada a receber a herança. O atleta, já conhecido de anteriores estadias, seria o “bode expiatório”, vítima agora da trama com que anteriormente o acusámos. O golpe era, pela calada da noite, com toda a gente a dormir profundamente depois dos copos, voltar à pensão, entrar no quarto 7 usando a chave suplente, matar o patrão adormecido, deitar a faca pela janela aberta de forma a parecer perdida no trajeto, e voltar a sair fechando a porta de novo, deixando a chave do 6 propositadamente esquecida fora do chaveiro para inculpar o surfista. Em qualquer acareação seria um contra um. E a possível negação da esposa poderia ser tida por pudor ou vergonha. Elaborámos duas suspeitas baseadas numa primeira análise, tal como era pedido. Mas sem certezas. A chave do 6 seria encenação da Vera, ou simples descuido do Rogério? Só uma investigação mais completa poderá dizer onde estará a verdade. Interrogatórios aturados, inclusive às três esposas, procura de impressões digitais na faca e não só, análise de vestígios da escalada pelas janelas. Sem ideias preconcebidas, siga a investigação. E não adianta fazer apostas. A lição deste problema poderá ser: cuidado com as aparências.” SOLUÇÃO DA PROVA N.º 7-B “QUAL DOS QUATRO?” AUTOR: DANIEL FALCÃO Naquela manhã soalheira de domingo, Gustavo Santos interrompeu o seu passeio próximo daqueles sete amigos, com uma média etária na ordem dos 70 anos e cuja soma das idades era quase cinco centenas. Enquanto quatro deles disputam uma partida de sueca, os outros três debatem o assunto do dia: o homicídio ocorrido no dia anterior. No decurso da conversa sucedem-se as informações entretanto conhecidas. Embora algumas dessas informações possam não ter qualquer utilidade, haverá sempre alguma coisa que se poderá aproveitar. A atenção de Gustavo Santos recaiu sobre o facto de a vítima ter utilizado os últimos instantes de vida para deixar uma pista aos argutos investigadores: chaves bem seguras numa das mãos (na mão esquerda, talvez porque fosse canhoto). A vítima, o Mito, era professor de História e, com toda a certeza, lecionaria História de Portugal. Naqueles últimos instantes de vida, teve a esperança de que quem investigasse a sua morte também soubesse um pouco da história do seu país. Achava ele que alguém se lembraria que os residentes da cidade do Norte de Portugal com este nome, Chaves, são conhecidos como flavienses, gentílico que advém da antiga designação Aquae Flaviae, que data de 79 d.C. quando dominava Tito Flávio Vespasiano, o primeiro da família Flávia. E porquê? Porque fora Tito (alínea C) quem o assassinara naquela tarde de sábado. Mas, constatara Gustavo Santos, para os três amigos que debatiam o assunto o que importava é que chegara mais um, permitindo que também eles se sentassem numa das mesas de pedra no jardim do Parque da Esperança e iniciassem uma partida de sueca. Agora, a soma das idades dos amigos, que já eram oito, ultrapassava as cinco centenas.

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