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Sábado - 2021-11-25

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A INDIFERENÇA NÃO É OPÇÃO

Teatro

Por Tiago Neto

definir a identidade sexual no seio de uma multiplicidade de identidades complementares e aparentemente contraditórias – enquanto intérprete, mãe, filha, amante, estranha? A pergunta é de Dana Michel, performer e coreógrafa canadiana, e é feita ao público. Em Cutlass Spring, performance que ocupa a sala Bernardo Sassetti do Teatro S. Luiz a 25 e 26 de novembro, podemos não ficar com uma resposta, mas a indiferença não é opção. “Usar a dificuldade como metodologia de navegação vem naturalmente e leva obrigatoriamente as minhas performances a lugares de vulnerabilidade e descoberta”, razão pela qual o que temos diante de nós, ao longo de uma hora, é uma viagem; por vezes desconfortável, por vezes emocional, erótica, íntima, divertida até, e crua, imaginada para refletir. E isso bebe da forma como Michel definiu a sua estética, uma mescla de influências que inclui escultura, comédia, hip-hop, cinematografia, techno, poesia, psicologia, dobragem e comentário social, que resultam numa construção de diferentes peles, simbolicamente representadas pela roupa e pelos objetos que traz ao centro da ação. À medida que as veste, despe e toma conta do espaço, aparecendo e desaparecendo de cena várias vezes, percebemos que também o passado, o presente e o futuro se encontram. Mas Cutlass Spring é mais do que uma metamorfose palpável sobre o tema da identidade de género, se assim a quisermos ver, ou sobre expressão corporal e comportamental. É um manifesto da performer e coreógrafa, e uma carta direta ao que esta quer passar-nos como sendo a sua própria visão do sexo nesta altura da sua vida, consequência daquilo que diz ter sido “uma contínua desconexão de si própria como um ser sexual nos últimos 20 anos”. “Sempre fui obcecada por ‘coisas sexuais’”, continua. “A minha irmã, muito mais velha, formou-se em Psicologia, então passei a minha infância, muitas vezes de forma furtiva, a ler os seus livros didáticos, sempre particularmente fascinada com os de sexualidade humana. Essas memórias voltaram o ano passado, quando o meu filho de 5 anos começou a ter workshops de educação sexual na creche.” A convite da programação do Alkantara Festival, organizado pela associação Alkantara, que todos os anos traz à cidade um cartaz de dança e arte performativa, a 25 e 26, Dana Michel vai mostrar no Teatro S. Luiz as facetas enterradas da sua composição humana, “mergulhando no que se tornou o mistério da minha ‘eu’ sexual”. Os espetáculos têm o preço de €12 e começam às 19h. ●

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