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Sábado - 2021-11-25

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Calão

Opinião

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico

É o melhor português de sempre no bodyboard, com dois campeonatos mundiais e cinco europeus, e teve igualmente sucesso no jiu-jítsu. Fora do desporto, é arquiteto: desenha pranchas e fatos impermeáveis e está a construir a moradia da família e uma escola no Porto. Manuel Centeno passou a semana que antecedeu a final do campeonato nacional de bodyboard a fazer demolições e a limpar entulho. Quatro dias após ter sido campeão – o 9º título na carreira –, na quinta-feira, 18 de novembro, falou com a SÁBADO depois de ter ido nadar (1 hora) na piscina do Clube Fluvial Portuense e de ter andado toda a tarde a picar as paredes de granito das casas de uma antiga quinta que comprou, em Serralves, no Porto – vai recuperá-las, transformando-as na moradia da família e numa escola de ensino alternativo. Com 41 anos, continua a revelar a sua faceta de homem das mil tarefas. Desde que experimentou o bodyboard, com 14 anos, por influência dos primos, Manuel Centeno não parou de somar títulos na modalidade (além dos troféus nacionais, foi duas vezes campeão mundial e cinco da Europa). A par da carreira desportiva, fez o curso de Arquitetura, trabalhou dois anos com o arquiteto Alcino Soutinho, criou o seu próprio ateliê, comprou e recuperou dois apartamentos na baixa do Porto e é desde 2011 o criativo da marca Deeply – é ele que desenha as pranchas e os fatos impermeáveis para surf e bodyboard. Também faz ioga e decidiu experimentar o jiu-jítsu – em 2017 foi campeão nacional e da Europa e medalha de bronze no Mundial. Tem ainda uma escola de surf e bodyboard em Matosinhos (em parceria com o amigo Nuno Azevedo) e desde 2020 que prepara o projeto de ensino alternativo – ali, as crianças vão aprender a relacionar-se com o planeta de forma harmoniosa, seja a criar galinhas, a plantar couves, a reutilizar a água ou a transformar lixo em adubo orgânico. Ter êxito no primeiro campeonato O segredo para conciliar tudo isto (e ainda a vida familiar)? Ser metódico, focado e organizado. Características que não tinha em criança. “Era daqueles miúdos hiperativos, e o pediatra teve o bom senso de me receitar, não comprimidos, como fazem agora, mas a prática de desporto. Para estar focado, o melhor era uma arte marcial – e então os meus pais puseram-me no karaté, andei lá dos 6 aos 14 anos, o que me trouxe disciplina. Com 7, fui para a natação, no FC Porto, e só saí aos 12 porque passei para a competição e aquilo começou a ficar puxado, com treinos bidiários.” Com 14 anos, surgiu o bodyboard, que experimentou em Leça da Palmeira, a praia onde a família passava as férias. Adorou e não quis outra coisa, apesar do mau início. “Na minha estreia, em Esposende, fui eliminado logo no primeiro heat, nem percebi bem o que me aconteceu”, conta. Na época seguinte, com 15 anos, ia começar a destacar-se. “Fiz o meu primeiro campeonato nacional, em Carcavelos, e fiquei em 2º lugar nos cadetes e em 3º na categoria acima, os juniores. Lembro-me que eliminei o Gustavo, um dos melhores aqui de Leça, e fugi para a carrinha do clube, com medo que me batesse.” Com 17 anos tornou-se campeão nacional de juniores e aos 20 ganhou o primeiro de nove títulos absolutos, seguindo-se os êxitos internacionais: 2006 foi “o ano perfeito”, ao vencer nacional, europeu e mundial. Olhando para estes 24 anos de sucessos, Manuel Centeno diz que não se quer “armar em convencido”, mas admite que “não há mais ninguém com estes títulos”. “A questão aqui é que ganhar uma ou duas vezes é ‘fácil’, o difícil é manter-se sempre lá em cima, no top 3 ou top 4, é ser competitivo e chegar às finais e andar na disputa dos troféus. Agora ganhei, mas no ano passado também fui competitivo, fiquei em 2º e estive nas quatro finais, só que na altura o Daniel [Fonseca] foi melhor do que eu.” Hoje em dia, diz, “ganhar uma taça já não faz tanta diferença”. “O que eu quero, e é isso que me leva a continuar, com 41 anos – em 2022 vou estar aí outra vez –, é ser um exemplo positivo para os mais novos, ajudá-los obrigando-os a serem mais competitivos. Já não olho para as provas numa perspetiva do ‘eu sou melhor do que tu’. O que me interessa é o processo, é quase como uma cooperação em que nós, como adversários, nos ajudamos uns aos outros a evoluir a nível físico e mental.” ● GOSTO MUITO DO CALÃO. O que é o calão? Uma rua cheia de gente ruidosa, por onde circulam carteiristas, fadistas, contrabandistas, meretrizes, chulos, travestis, actores, operários, jornalistas, estudantes, drogados da seringa, marinheiros, músicos, marialvas, foliões de sábado à noite, pedreiros, tipógrafos, militares, o diabo. É uma linguagem mergulhada no pecado, que fica na rua até tarde, gosta de um copinho de vinho e de aguardente barata, vai às tabernas e aos bares sombrios e fumacentos, arrisca na roleta e joga cartas a dinheiro. É o dicionário de chinelos e mangas de camisa. É a expansão do português, a nossa língua dilatada pelo calor, como dizia Eça do brasileiro. É o seu grau superlativo, a sua dimensão mais desmedida e depravada. O calão não é reservado nem discreto, leva uma vida desregrada (ou procura-a) e conhece a maldade humana, não tem dúvidas de ordem moral. É um dos assombros da infância, quando ainda saltamos ao eixo e ficamos deslumbrados – com as orelhas arrebitadas – pela descoberta das primeiras palavras proibidas. Entra-nos, depois, pela adolescência, acompanha-nos nos maus e nos bons momentos. O calão tem uma beleza natural, incluindo nos seus defeitos e no seu léxico brutal. Gosta dos prazeres da existência, alberga regularmente pensamentos de desejo sexual, expressa-os com veemência, revelando-nos a outra pessoa que escondemos dentro de nós. É uma forma de desmoronar as distâncias em relação aos outros, mas também de criar barreiras, quando não queremos que nos compreendam. Com ele, escreveram-se trovas (Gil Vicente), sonetos (António Lobo de Carvalho, O Lobo da Madragoa, Bocage), poemas épicos (Caetano José Souto-Maior, O Camões do Rossio) ou heróico-cómicos (José Agostinho de Macedo, “o Padre Lagosta”), epitáfios (”Aqui jaz, mui contente de seu Fado,/Jacinto Palmeirão; Que quatro lindas vezes foi casado,/E quatro foi cabrão”, Filinto Elísio), textículos (Luiz Pacheco), romances (O Que Diz Molero), crónicas (Miguel Esteves Cardoso), músicas pop/rock (Chico Fininho, Perfume Patchouli), blogues (O Meu Pipi). É também uma forma de resistência contra o poder, as convenções, as academias, a moral compulsória. É a coragem dos desvalidos, quando repreendem os vícios e as injustiças dos grandes e poderosos. O calão dá largas a si próprio, sai de qualquer maneira. Não anda nas pontas dos pés nem tem medo de perturbar o estado de coisas. É o coração nos dentes impondo-se à moderação, à concórdia, à conciliação. O exacto contrário do recato, da respeitabilidade e da razoabilidade, da linguagem morna do dia-a-dia. É a subversão permanente da sintaxe e da lógica, uma lava turbilhonando dentro do mundo solene e comedido da língua, do português limpo e pomposo. É a demonstração rigorosa de que a linguagem muda mais depressa do que os seres humanos. O calão exprime movimento, tem o mérito da naturalidade e da agilidade narrativa. Nele há uma enorme sensação de liberdade, de desordem e de intensidade. Há alegria, excesso, detonações, faíscas, firmeza de estilo, uma vida sonora própria, mais sortida em imagens. O calão traz aos ouvidos surpresas várias. É um motor poderoso do processo fonético e linguístico, abre outros horizontes epistemológicos. Por vezes, o calão e a gíria andam de braço dado, confundem-se. Segundo Manuel Joaquim Delgado (1910-1990), distinto filólogo e etnógrafo, “a gíria significa o mesmo que calão. Gíria parece relacionada com geringonça ou gerigonça, que, por seu lado, se relaciona com o francês jargou, o italiano gergonc e gergo,o castelhano geringonza, gerigonza (ou jerigonza) e xerigonça. Calão vem de caló, nome que se dá ao cigano do nosso país. Propriamente, quer dizer ‘cigano’ e ‘língua de cigano’” (O Calão e a Gíria Plebeia, separata da Revista de Portugal, Série A: Língua Portuguesa, Vol. XXX, pp. 155-170, Lisboa, 1965). Numa época como a nossa, em que somos cada vez mais obrigados a controlar as impressões que os outros têm sobre nós, recorrendo à contenção emocional e à moderação verbal, em que se tenta criar uma relação terapêutica com a linguagem, o calão é um idioma de compensação psíquica, que flui de maneira envolvente e nos olha directamente nos olhos. O calão inventa palavras que reduzem a resistência do ar e se precipitam com violência em direcção aos nossos pavilhões auriculares. É um linguajar de precisão assustadora: bastam-lhe duas ou três palavras para ficar tudo dito. Permite-nos morder nos outros, cortar-lhes na casaca, castigar adversários e inimigos. Mandá-los à fava, infernizá-los, calcá-los. Serve para amesquinhar ou ofender com propósitos achincalhantes, sem delicadeza nenhuma (e, pior ainda, com consciência disso). O calão é uma linguagem concebida para agredir e insultar ou apupar – em incidentes de rua, nos sarilhos do trânsito, em ajuntamentos populares, nas pugnas de clãs políticos rivais, nos ambientes broncos e alarves, em conversas narcisistas, quando os homens gabam o tamanho e o vigor do seu pénis –, mas também para divertir. O calão mistura agressividade e gozo, inclui uma profusão de palavras indecentes, fétidas e embaraçosas, de consumo farto, como (tranquem os ouvidos) punheta (“Cinco contra Um”), rata (“Países Baixos”, “Salão de Festas”), caralho (“A Felicidade das Mulheres”), minete (“Beijar a Relva”, “Falar ao Telefone”). Para alguns, trata-se de anomalias do pensamento (nos EUA, por exemplo, o Tribunal Supremo regulou em tempos o uso da linguagem “indecaló cente” nos meios audiovisuais, as chamadas “sete palavras sujas”: merda, mijo, foda-se, cona, estúpido, cabrão e tetas). No Dicionário Aberto de Calão e Expressões Idiomáticas, da Universidade do Minho, coligido por José João Almeida (fonte de consulta geralmente bem informada, saboroso pretexto para encadear devaneios linguísticos), o calão possui uma hierarquia interna, deliciosa e fulgurante, que começa no calão normal (nível superficial, que não escandaliza ninguém), passa pelo calão tout court,o calão arcaico/erudito (ex. “Clitóris”, “Flatulência, Sodomia”), o calão coloquial (“Bacano”, “Bófia”, “Bosta”, “Chavalo”, “Dar de Frosques”, “Dar Cabo da Troika” – “O meu marido dá-me cabo da troika” –, “Endrominar”, “Laurear a Pevide”, “Chunga”, “Sulfato de Peúga”), o calão carroceiro (“Queca”, “Brochista”, “Pichota”, “Black and Decker”, “Mais Longe Que o Caralho Mais Velho”, “Nem Ford nem sai de Simca”), o calão muito carroceiro (“Fodilhão”, “Empata Fodas”, “Enrabador de Curiosos”, “Fazer um Bobó”, “Filho de um porta-aviões de putas”, “Filho de um cabaz de cornos”, “Jogar Bilhar de Bolso”), e termina no calão estupidamente carroceiro, o nível mais profundo, aquele que nos deixa corados como uma maçã Fuji (curioso é o dicionário considerar estupidamente carroceira a palavra “Minete”, mas apenas muito carroceiro o adjectivo “Mineteiro”). No calão encontramos extractos permanentes da identidade nacional, resíduos acumulados devido a experiências repetidas de muitas gerações. Através dele, e das suas especificidades antropológicas, reconhecemos os elementos constitutivos da nossa cultura e do nosso quotidiano. Elementos que relacionam a evolução dos indivíduos com a evolução das estruturas sociais, e que casam com o espírito de diferentes épocas. (Continua) ●

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