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Sábado - 2021-11-25

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A DISMORFIA DE ZOOM...

Sociedade

Por Sónia Bento

Alista de queixas é grande. De rugas a flacidez, passando por olheiras e papos, duplo queixo, poros dilatados, falta de luminosidade e até o nariz e a testa que, de repente, parecem ter ficado maiores. Passar horas a olhar para o próprio rosto no ecrã durante videochamadas e reuniões por Zoom, no período de confinamento, provocou um efeito sem precedentes em muitas pessoas – dismorfia, ou seja, distorção da autoimagem. Está tudo concentrado no rosto. Este é um fenómeno que ganhou um nome – zoom boom – e que levou a um aumento expressivo de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos. Com a pandemia, expusemo-nos a uma câmara e começámos a ver-nos demasiado ampliados, mal iluminados e em ângulos pouco favoráveis. Mais de um ano depois, para algumas pessoas pode parecer lógico acreditar que, afinal, são mesmo assim, como a câmara as mostra. “A assimetria das orelhas tem sido uma das queixas mais frequentes. É incrível a procura que tem havido. Também há muita gente a ver-se com a testa grande, o que não acontecia no passado. Em muitos casos valorizado apenas pela própria pessoa, porque a câmara acentua a dismorfia. A maneira como se vê o nariz, as pálpebras e as sobrancelhas também tem provocado maior afluência de pessoas à procura de soluções”, explica à SÁBADO David Ângelo, diretor clínico do Instituto Português da Face. E acrescenta: “A assimetria só deve ser valorizada acima dos três milímetros e há pessoas que nos aparecem com assimetrias de apenas um milímetro, que ninguém nota, só a própria é que se vê assim e nalguns casos torna-se uma obsessão. É muito importante perceber a parte psicológica.” Autoimagem distorcida No fim do verão de 2020, Shadi Kourosh, dermatologista da Faculdade de Medicina de Harvard, reabriu o seu consultório e ficou surpreendida com a insatisfação dos pacientes com a própria aparência. Tinham descoberto maçãs do rosto caídas, papadas que surgiram de repente e narizes desproporcionados. As queixas concentravam-se nos mesmos ângulos e as pessoas pediam tratamentos muito específicos: “preencher, iluminar e apagar”. A médica consultou alguns colegas e a experiência era semelhante. Mais de 50% verificaram um aumento das consultas estéticas em plena crise sanitária. Perguntaram aos pacientes o que os tinha motivado a procurá-los e 86% responderam que tinham sido as videoconferências. Depois de entrevistarem 7 mil pessoas, Kourosh e a sua equipa descreveram uma nova síndrome: a dismorfia do Zoom. A sua teoria é que oito meses de uso indiscriminado de câmaras frontais distorceram a imagem que temos de nós próprios, um efeito que poderá ir além da pandemia. “A maioria das pessoas não tem consciência de que as câmaras frontais podem deformar os traços como um espelho que nos distorce, como os que existem nos parques de diversões”, escreveram Kourosh e sua equipa num artigo publicado no International Journal of Women’s Dermatology. ●

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