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Sábado - 2021-11-25

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AS PRIMEIRAS REPÓRTERES DE GUERRA

Sociedade

Martha Gellhorn Por Susana Lúcio

Martha Gellhorn entrou no navio da Cruz Vermelha, ancorado no porto inglês, e escondeu-se numa casa de banho. A jornalista norte-americana estava furiosa. Um novo protocolo militar proibia repórteres mulheres na frente de batalha e o próprio marido, o escritor Ernest Hemingway, num ato vingativo, tomara o seu lugar como correspondente da revista Collier. Mas nem isso a impediria de cobrir o desembarque dos Aliados na Normandia, em 1944. Martha Gellhorn foi uma das poucas jornalistas que acompanharam a Segunda Guerra Mundial numa altura em que a profissão estava vedada a mulheres. As aventuras dela e de mais cinco profissionais são contadas num novo livro, The Correspondents (as correspondentes), escrito pela também jornalista, Judith Mackrell, lançado este mês. De uniforme vestido, ninguém questionou a presença de Martha Gellhorn no navio. Quando chegou, a praia estava pejada de corpos que flutuavam como “sacas inchadas cinzentas”, escreveu. Ajudou na recolha e no tratamento dos feridos e enviou dois artigos sobre a tragédia que testemunhara. De regresso a Londres, perdeu a acreditação e pediu o divórcio. Anos antes, outra jornalista reportou a ascensão de Hitler ao poder em Berlim. Sigrid Schultz, uma norte-americana com pais alemães, começou em 1919 como intérprete para os correspondentes do jornal Chicago Tribune e em 1925 era a primeira mulher chefe do gabinete internacional de um jornal norte-americano. Criou uma rede de contactos impressionante, entre eles Hermann Göring, o fundador da Gestapo, com quem se reunia em jantares em casa para recolher informação. Entrevistou Hitler e denunciou os planos do ditador para dominar a Europa. Também se habituou a ser seguida, teve o telefone sob escuta e, para não ser expulsa do país, passou a assinar os artigos mais críticos com um pseudónimo. Em Espanha, a guerra civil foi a primeira missão de Virginia Cowles. Alta e elegante, a socialite nova-iorquina seguiu os passos da mãe, que após o divórcio foi revisora. Virginia escreveu nas trincheiras dos republicanos, em Madrid, de casaco de peles e saltos altos. Por dois dias esteve cativa de um oficial soviético que, apaixonado, a queria converter ao comunismo. Visitou Guernica com oficiais de Franco e teve de fugir do país quando suspeitaram que era espia. Como Virginia, Clare Hollingworth foi educada para casar bem. Mas a rapariga britânica depressa cortou amarras e em 1934 passou a viver em Genebra, onde escrevia sobre a Liga das Nações como repórter freelance. Em 1939 conseguiu o furo do século: noticiou o início da guerra. Enviada para a Polónia, passou a fronteira da Alemanha de carro à procura de indícios da invasão nazi. Jantou, foi às compras e quando regressou, passou por uma estrada flanqueada com telas de camuflagem. Uma rajada de vento abriu uma delas e revelou centenas de tanques panzer no vale. “1.000 tanques concentrados na fronteira polaca”, foi a manchete do Telegraph que escreveu no dia seguinte. Da moda para a guerra O conflito tornou a fotógrafa de moda norte-americana Lee Miller famosa em Nova Iorque pelos seus ensaios na revista Vogue. A viver em Londres com o namorado, a repórter testemunhou os bombardeamentos da cidade em 1940 e captou imagens de igrejas e pianos enterrados no entulho de prédios destruídos – publicadas em livro. Foi depois de ver as fotos que a revista de moda norte-americana lhe começou a pedir artigos sobre a guerra. Em 1944, Lee Miller foi enviada para Paris para cobrir a libertação da cidade: “A cidade parece o dia a seguir a um baile”, escreveu. E em 1945, testemunhou a libertação do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. A experiência marcou-a profundamente: sofreu de depressão, deixou a fotografia e nunca falou da carreira ao seu único filho. Em Buchenwald esteve também outra correspondente, Helen Kirkpatrick. A norte-americana foi a primeira jornalista mulher do Chicago Daily News e esteve sempre na frente da batalha: cobriu o desembarque da Normandia, a libertação de Paris e a entrada dos Aliados na Alemanha nazi. Licenciada em Direito Internacional, os seus artigos eram lidos pelo comandante-geral das forças Aliadas na Europa, o general Eisenhower. Em Buchenwald testemunhou e ajudou as equipas médicas que se esforçavam por manter vivos os sobreviventes – “3.000 esqueletos regressam lentamente à vida”, escreveu. ●

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