Publication:

Sábado - 2021-11-25

Data:

VACINAS: A SEGUNDA GERAÇÃO

Sociedade

Por Lucília Galha

Sprays nasais, pensos adesivos com microagulha que não doem ao aplicar. As novas armas contra a Covid podem chegar já em 2022 Sim, estamos muito melhor do que estávamos há um ano, mas não se iluda: ainda não é possível respirar de alívio. Porquê? “Ter uma taxa de vacinação muito elevada deu-nos uma proteção individual importante, mas não evitou que continuássemos a ser infetados e também potenciais transmissores”, diz à SÁBADO o imunologista Manuel Santos Rosa. Partindo dessa limitação, universidades, farmacêuticas e até startups começaram a desenvolver “algo diferente”. O quê? Formas de impedir que o vírus se replique e que a pessoa o transmita a outros. Como? Através de um spray nasal ou de um penso adesivo, por exemplo. Bem-vindo às vacinas de segunda geração. O que são vacinas de segunda geração? ▶ Todas aquelas que tenham melhorias muito significativas em relação às atuais. “Podem ser vacinas mais adaptadas às variantes, que tenham como objetivo principal prevenir a infeção e bloquear a transmissão do vírus, vacinas cuja resposta imunitária seja mais durável ou vacinas com administração mais simples, oral ou inalada”, enumera Miguel Prudêncio, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM). Porque precisamos delas? ▶ Por um lado, por causa da persistência do vírus SARS-CoV-2. “As situações anteriores, epidémicas, pandémicas, até a gripe sazonal (que vem nos meses frios e depois desaparece por si própria), nunca persistiram muito tempo”, diz Manuel Santos Rosa, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. “Já o SARS-CoV-2, não só pelas mutações, mas pelas suas características – consegue infetar muitas células do nosso organismo –, acaba por ter uma persistência mais longa”, explica o especialista. Por outro lado, porque as atuais vacinas conferem proteção individual, mas não a chamada imunidade de grupo. “A limitação mais importante que se tenta resolver é a transmissibilidade”, diz o investigador do IMM, Miguel Castanho. A resposta do sistema imunitário com as vacinas atuais é “um pouco lenta”, diz o investigador. “Aparece ao fim de algum tempo e durante o período que medeia a entrada do vírus no organismo e a reação do sistema imunitário, o vírus ainda consegue multiplicar-se”, explica. Quantas vacinas estão a ser desenvolvidas? ▶ Segundo a Organização Mundial de Saúde, há 132 vacinas em ensaios clínicos e 194 na fase pré-clínica, ou seja, ainda em testes laboratoriais ou em animais. Entre aquelas já a ser testadas em pessoas, a maioria são injetáveis, mas há 4 de administração oral (como um comprimido), 8 que se destinam a ser inaladas e 1 em aerossol. Quais estão mais avançadas? ▶ A vacina da farmacêutica americana Novavax está a ser avaliada pela Agência Europeia do Medicamento e, se o parecer for positivo, poderá ser a 5ª autorizada para a União Europeia. A metodologia é diferente das vacinas de RNA, como a da Moderna e da Pfizer: “É uma vacina baseada na proteína do vírus, ou seja, apresenta logo uma componente do vírus ao sistema imunitário. É outra forma de conseguir a mesma coisa”, explica o especialista em vacinas, Miguel Prudêncio. Também a da francesa Sanofi já está em ensaios clínicos de fase 3, a ser avaliada como dose de reforço de outras vacinas. Há ainda outra vacina promissora e com uma forma de administração diferente – trata-se de um spray nasal. “Foi desenvolvida pela Universidade de Oxford e já está a decorrer um ensaio clínico na Suíça”, diz o imunologista Manuel Santos Rosa. As vacinas inaladas são mais eficientes? ▶ Potencialmente sim, porque a resposta do sistema imunitário se desenvolve logo no ponto de entrada do vírus, ou seja, ao nível das vias respiratórias, nomeadamente, no nariz. “Tenta-se que a vacina replique melhor o processo da infeção em si, no local em que começa”, explica o investigador do IMM, Miguel Castanho. É sabido que o SARS-CoV-2, embora possa afetar vários órgãos, causa mais problemas no sistema respiratório. “Essas vacinas terão como principal objetivo reforçar muito a imunidade da pessoa ao nível da mucosa respiratória e com isso tenta-se bloquear a transmissão”, diz Manuel Santos Rosa. E aquelas que consistem num selo adesivo? ▶ As vacinas são constituídas por moléculas que podem ser colocadas em qualquer meio. Normalmente, usa-se uma suspensão líquida que é injetável, mas há outras formas. “Essas mesmas moléculas podem ser colocadas numa espécie de gel que é fixado a um adesivo. Esse gel tem uma espécie de microagulhas que, ao entrarem na pele, canalizam as moléculas da vacina e, a partir daí, desperta-se a resposta imunitária”, explica o imunologista Manuel Santos Rosa. Têm uma vantagem: o processo é indolor. Há uma startup sediada na Universidade de Queensland, na Austrália, a Vaxxas, que já está a testar em humanos uma vacina deste género. As vacinas baseadas em proteínas do vírus, como a da Novavax, têm alguma vantagem em relação às de RNA, como a da Pfizer? ▶ Têm duas: a facilidade de armazenamento – a vacina da Novavax pode ser guardada num frigorífico convencional, entre 2 e 8 graus celsius –, e a eficácia contra as variantes em circulação. “As análises das séries de imunização primária [duas injeções, com 21 dias de intervalo] mostraram anticorpos com reatividade contra as variantes Alfa, Beta e Delta, que aumentaram 6 a 10 vezes com uma dose de reforço”, disse à SÁ BADO fonte oficial da farmacêutica americana. O que é uma vacina pancoronavírus? ▶ Há várias farmacêuticas que estão a desenvolver vacinas que se destinam a criar imunidade contra vários vírus em conjunto. Por exemplo, a Moderna anunciou em setembro que está a apostar numa vacina que combine “a dose de reforço contra a Covid-19 com a vacina da gripe”. Também a Novavax já iniciou um ensaio clínico de uma combinação semelhante de vacinas. Outra linha de investigação, “e que tem potencial para acontecer, é uma vacina pancoronavírus, ou seja, que confere proteção para todos os vírus da família do coronavírus”, diz Miguel Prudêncio. Depois disto, o que se seguirá? ▶ Um estudo da University College London, publicado recentemente na revista Nature, indica um caminho alternativo para as próximas vacinas contra a Covid. “Existem as vacinas que produzem anticorpos que impedem a infeção, mas também há células do sistema imunitário [as chamadas células T] que detetam as infetadas e impedem que o vírus se multiplique. Ou seja, a ideia destas novas vacinas seria educar o sistema imunitário na deteção de células infetadas”, explica Miguel Castanho. Este poderá ser o futuro, mas também pode acontecer outra coisa, chama a atenção o imunologista Manuel Santos Rosa: “A segunda geração de vacinas perde interesse se os medicamentos antivirais forem eficazes, como aconteceu nos ensaios”, diz. Há duas farmacêuticas com antivirais em fase final de aprovação, a Merck e a Pfizer, que demonstraram grande eficácia a travar a replicação do vírus, logo no início da infeção. “A vantagem de destruir o vírus é fazer com que a pessoa deixe de ser transmissora, é uma arma muito importante para parar a pandemia”, remata o especialista. ●

Images:

© PressReader. All rights reserved.