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Sábado - 2021-11-25

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O moderno onzeneiro

Crónica

GIL VICENTE, UM DAQUELES CLÁSSICOS QUE RETRATA COMO POUCOS A MODERNIDADE, já tinha criado a personagem do onzeneiro, um tipo que enriqueceu à custa dos juros altos aplicados nos empréstimos aos mais necessitados. Obcecado pelo dinheiro, até no fim não aceitou a sua condenação ao Inferno, pensando que o dinheiro compraria o Paraíso. Hoje, o dinheiro não só compra o Paraíso, como evita condenações e cumprimentos de penas de prisão. O onzeneiro moderno agradece. A figura retratada pelo dramaturgo entrou-nos, esta semana, em casa, provavelmente por Skype ou Zoom. Algures no planeta, menos no Belize, garantiu, protegido de olhares indiscretos por uns clássicos reposteiros, João Rendeiro falou à Nação, como se esta tivesse saudades dele, garantindo estar bem, a trabalhar, a ter uma vida normal: casa, trabalho, praia, ginásio e, agora solteiro, talvez umas voltas pelo Tinder. Entretanto, como revelou, até foi convidado para montar uma operação financeira que envolve 500 milhões de dólares. Um emigrante de sucesso, pois claro, que um dia até será nomeado cônsul esteja lá onde estiver. Um fugitivo da justiça portuguesa – até para ninguém dizer que o sistema judicial português é pouco garantístico – deve ter direito a tudo. Mais: nas atuais condições, o Estado português até deveria pagar uma pensão ou subsídio a João Rendeiro para diáspora forçada, até porque o homem não é mais do que o produto daquela tal portugalidade que, acefalamente, cria os seu heróis. Durante anos, João Rendeiro foi o “mago” da banca. Na altura, ninguém pensou na contradição entre o substantivo e a atividade económica. Como havia dinheiro para tudo, até se acreditava que os banqueiros faziam magia. E se Oliveira Costa tinha criado um império e Ricardo Salgado era dono disto tudo, por que razão João Rendeiro não poderia ser o Luís de Matos do capital, garantindo “retorno absoluto” do capital investido com taxas a rondar os 6%? É certo, como se verificou, que o tal “retorno absoluto”, afinal, não era absolutamente credível e, no fim, muitos clientes nem viram o retorno, nem o dinheiro, ao mesmo tempo que a equipa de gestão do BPP se autoatribuía uns estratosféricos prémios de gestão. Mas era assim a portugalidade da época: prémios para o “Mago”, prémios para o “banqueiro” do ano, prémios para o melhor “CEO” de Portugal a Timor, Zeinal Bava. À boa maneira desta portugalidade, João Rendeiro apareceu a queixar-se do sistema e, tal como um miúdo na escola quando o professor o repreende, a apontar para o colega do lado: “O Ricardo Salgado é pior do que eu e anda por aí à vontade. O que é que são os meus crimes comparados com os mais de 60 que o antigo dono do BES está acusado?” Fácil: os de João Rendeiro estão dados como provados. Os de Salgado ninguém sabe. Talvez sim, talvez não. Talvez nenhum de nós esteja cá quando acontecer o trânsito em julgado do processo do BES, essa figura da mitologia judicial, quando estão em causa arguidos com a necessária capacidade financeira para pôr em causa todas as teorias sobre o fim do mundo. A desfaçatez do fulano vai ao ponto de anunciar um pedido de indemnização de 30 milhões ao Estado português. Percebe-se o racional: se os contribuintes enterraram umas boas centenas de milhões no BPN e no Novo Banco, porque não aplicar uns míseros 30 milhões no “mago” da banca? Um dia, João Rendeiro ainda nos explicará que esses tais 30 milhões não são uma despesa, mas um investimento, garantindo um “retorno absoluto”. E se ninguém protestou com o BPN e o Novo Banco, muito dificilmente aparecerá uma voz a zurzir contra dinheiro entregue a João Rendeiro. Afinal, são trocos quando comparados com tudo o que já se injetou nos bancos. E o homem tem três cães para alimentar. Talvez o PAN e as redes sociais apoiem o indulto. É esta a nossa portugalidade. ●

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