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Sábado - 2021-11-25

Data:

Ambiente e juventude

Portugal

Domingos Quaresma, o chefe da divisão de higiene da junta de freguesia de Arroios, em Lisboa, está suspenso e com processo disciplinar instaurado. Recorde-se que – como se viu numa reportagem em vídeo que a SÁBADO publicou no dia 23 de setembro – Quaresma era o funcionário que quase todos os sábados saía do seu posto para, de manhã, ir buscar a casa Margarida Martins (presidente da junta na altura) para a levar ao mercado 31 de janeiro, onde a ex-autarca fazia as suas compras pessoais. E depois do almoço ia também muitas vezes levá-la a casa, bem como os sacos de mercadorias. Segundo apurou a SÁBADO, Quaresma foi surpreendido este mês a deslocar-se a um hostel para recolher alguns artigos de vestuário e transportá-los para a junta. Questionado, terá respondido que foi Margarida Martins que lhe solicitou o recado. Como esta não tem já qualquer autoridade sobre o funcionário, foi-lhe instaurado um processo disciplinar. A SÁBADO teve indicação de que foi também suspenso, embora o novo executivo não tenha confirmado esse dado (não respondeu, aliás, ao email da SÁBADO). Sem resposta ficaram também os pedidos de esclarecimento enviados a Domingos Quaresma (via Messenger) e Margarida Martins (por email). Uma das hipóteses em cima da mesa é a deslocação (neste caso, um regresso) deste trabalhador para os quadros de pessoal da câmara. Logo de seguida ao caso Domingos Quaresma começaram a aparecer coladas nas ruas da freguesia folhas A4 com a frase “Junta de frebém guesia de Arroios assedia os seus trabalhadores”. Os panfletos apareceram em duas versões, azul com o símbolo do CDS adulterado, e laranja com o símbolo do PSD, tam manipulado (os símbolos tinhas as setas viradas para baixo). Recorde-se que PSD e CDS-PP eram os dois principais partidos da coligação Novos Tempos que nas autárquicas de 26 de setembro conquistou a Câmara Municipal de Lisboa ao PS. Bem como várias freguesias, entre elas Arroios – onde a nova presidente, Madalena Natividade, é uma independente indicada pelo CDS no âmbito da coligação. O desprezo da comunista Outro assunto relacionado com o antigo executivo de Margarida Martins é a assessoria jurídica que Lúcia Gomes, ex-vereadora do PCP, tinha na junta. A advogada, um dos braços-direitos de Margarida Martins, ganhou €281 mil euros em avenças em Arroios desde 2016. Na véspera das autárquicas foi aumentada para €3.430/mês num contrato de três anos com um valor global de €123.480. Quando a Polícia Judiciária esteve a fazer buscas no edifício da junta, no Largo do Intendente, estas prestações de serviço foram um dos alvos de atenção dos inspetores. Segundo a SÁBADO conseguiu saber, esta avença de Lúcia Gomes foi terminada pelo novo executivo através de um acordo entre as partes. A junta de freguesia não respondeu às nossas perguntas sobre os termos deste acordo financeiro, nem no Portal Base consta ainda a atualização (ou seja, a rescisão) que o contrato teve. Contactada pela SÁBADO, Lúcia Gomes respondeu com uma pergunta: “Teve a indicação de quem?” E após insistência sobre a rescisão: “Faça como entender. Continuo a entender que Bernard Shaw tem razão.” Não especificou, mas deverá ser uma alusão a uma das frases conhecidas do dramaturgo irlandês, a de que o silêncio é o melhor desprezo. Ainda assim, logo de seguida escreveu na sua conta no Twitter que tinha sido contactada pela SÁBADO e enumerou as pessoas que tinham estado nessa reunião na junta (falou na presidente, no tesoureiro e no presidente da assembleia de freguesia), sugerindo que a fonte seria um deles. Mais tarde apagou o tweet. O contrato da fruta A sombra de Margarida Martins continua nas ruas de Arroios. A ex-autarca não só continua a frequentar regularmente o mercado 31 de janeiro, como entra na loja que a junta de freguesia tem no mercado, lá permanecendo longos períodos em conversa com o fiscal de serviço – segundo testemunhas oculares revelaram à nossa revista. Visita também Adelino Cardoso, o comerciante que na reportagem da SÁBADO assumia que oferecia sempre fruta a Margarida Martins. A banca em causa pertence à empresa Fasquia de Sucesso, Lda., à qual em 2018 foi adjudicado por ajuste direto, um contrato de €21.347 para fornecimento, durante um ano, de fruta e legumes para uma escola de Lisboa (a Básica Maria Barroso) no âmbito do programa Alimentação Escolar – Crescer Saudável. O caderno de encargos, que a SÁBADO consultou, falava em 71 artigos, incluindo figos (4 quilos), morangos (100), abóbora (970), ou batata (1.850). Segundo a Câmara Municipal de Lisboa (CML), o departamento de educação contactou “4 entidades especializadas neste tipo de bens alimentares, bem como outras 4 generalistas”, entre as quais se contava a Makro, o Modelo Continente e o Recheio Cash & Carry. Mas “não foi recebida nenhuma proposta”, o que a CML diz à SÁBADO ter sido “imprevisível”. Em face da urgência que se terá colocado (tudo decorreu em outubro, com o ano letivo a começar), a CML diz que contactou os comerciantes do mercado municipal mais próximo da escola, o do Ribeira, “que se mostraram indisponíveis”. De seguida, passaram para o 31 de janeiro, “tendo a Fasquia do Sucesso demonstrado ter capacidade de satisfação”. A empresa em causa não respondeu ao email da SÁBADO.W No mesmo gabinete, já houve outras nomeações de sub-30. Ana Afonso de Matos (ex-vereadora sem pelouro, pelo PS, em Almada) foi contratada em 2019 com 24 anos, Rui Ferreira de Almeida (da JS Oeiras) com 26. E o ministro do Ambiente nomeou o técnico especialista Gonçalo Santos (presidiu à Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) aos 21 anos.

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