Publication:

Sábado - 2021-11-25

Data:

O QUE PENSAM 30 MILITANTES SOBRE OS DOIS RIVAIS

Portugal

Por Margarida Davim

Rui Rio é o mais atlético, Paulo Rangel o mais divertido? Rio o mais cauteloso, Rangel o mais crédulo? Uma amostra aleatória de militantes do PSD (com rioístas, rangelistas e indecisos) será um bom ponto de partida para perceber como é que os sociais-democratas veem os dois candidatos que disputam este sábado a liderança do partido. O desafio era responder a 10 perguntas que ajudam a traçar o perfil psicológico dos dois rivais aos olhos de quem vai votar neles. Rangel, o bom vendedor Com apenas dois meses entre as diretas para a liderança e as eleições legislativas, se for eleito líder, Paulo Rangel terá de ter dotes de bom vendedor, para em pouco tempo conseguir convencer o maior número de eleitores a votar no PSD. Segundo a maioria dos militantes ouvidos pela SÁBADO, esse não deve ser um problema: 17 dos 30 inquiridos escolheria Rangel para vender sabonetes. Apenas cinco optariam por Rio e três acham que tanto um como outro dariam um bom comercial. “Paulo Rangel é capaz de vender produtos mesmo que não sejam bons. O Rio dizia logo: ‘Tenho aqui isto, que não presta, mas pronto...’”, comenta um dos sociais-democratas que responderam ao desafio, mas não se quiseram identificar. Fernando Ruas, presidente da câmara de Viseu, admite que “qualquer um deles tem jeito para a conversa e para convencer”, mas se tivesse uma fábrica de sabonetes optaria por Paulo Rangel para os vender. Luís Gomes, o candidato derrotado do PSD à câmara de Vila Real de Santo António, acha que “os dois têm pouco jeito” para as vendas, mas na dúvida também optaria por Rangel. Bruno Vasconcelos, que foi candidato ao Seixal, faria a mesma escolha “sem grandes certezas”. Hugo Neto, conselheiro nacional do PSD, responde à pergunta chutando para canto. “Escolheria António Costa, especialista nacional na venda de banha da cobra.” Mais esmagadora é a preferência por Paulo Rangel como companhia para uma noite de copos. A pergunta, que alguns acharam maldosa, faz parte de um esquema clássico da Ciência Política para aferir o grau de simpatia pessoal suscitado por um candidato. É o chamado beer test, que anteviu, por exemplo, a possibilidade de George W. Bush ganhar a presidência dos Estados Unidos ao democrata John Kerry, quando a má imagem de Bush poderia fazer supor que o republicano não teria grandes hipóteses. O teste da cerveja Alguém com quem beberíamos uma cerveja é, em tese, um político com o qual nos sentiríamos mais à vontade e, dizem os estudos, isso tem um peso eleitoral. Se a teoria estiver correta, Paulo Rangel tem razões para ficar satisfeito com os resultados desta pergunta. Em 30 inquiridos, 18 sentiriam vontade de o convidar para sair. “É bem mais divertido e bem humorado”, justifica Hugo Neto. Mas também há sete que não querem sequer pensar na hipótese de ir para os copos com qualquer um deles, um que iria com os dois e dois que não sabem ou não quiseram responder. Fernando Ruas é um dos que não convidariam nem Rio nem Rangel. “Mas isso é porque eu para uma noite de copos não dou, não tenho essa qualidade.” No campeonato da popularidade, Paulo Rangel também sai favorecido na resposta sobre quem convidaria para ser padrinho do seu filho: é escolhido por 11 dos inquiridos, quando só sete convidariam Rio. Mas talvez a afinidade pessoal não seja grande com nenhum dos dois, porque há 10 que não os queriam para apadrinhar os filhos. Rui Rio, que cultiva um perfil mais austero, só seria a escolha de dois. A maioria dos sociais-democratas que participaram no inquérito, acreditam ser capazes de enganar qualquer um dos candidatos à liderança. Foram 13 os que responderam que tanto Rui Rio como Paulo Rangel acreditariam numa mentira contada por eles. “Como seria a primeira vez que faltaria à palavra com qualquer um deles, admito que pudesse enganar os dois”, justifica Hugo Neto. Ainda assim, Rui Rio é visto como mais difícil de enganar do que Paulo Rangel. Só um dos inquiridos respondeu que seria mais fácil que Rio acreditasse numa mentira, contra seis que estão convencidos de que Rangel é o mais crédulo dos dois. Ainda assim, na categoria para aferir as capacidades de liderança, Rangel sai a ganhar. Há 14 inquiridos que o escolheriam para os guiar se estivessem perdidos à noite numa floresta, contra os seis que dizem preferir as orientações de Rio. Curioso é que haja sete que não seguiriam as indicações de nenhum dos dois. “Nisso vou pelos meus meios”, responde Ruas. “Perdidos estamos nós e não damos com o caminho”, desabafa um social-democrata que não quis ser identificado. Mauro Xavier era um dos que não escolheriam nenhum para os conduzir na floresta, mas António Rodrigues e José Cesário seguiriam a indicação de qualquer um dos dois. Em compensação, os sociais-democratas parecem olhar para ambos os candidatos à liderança como homens de boas contas. A maioria (11) aceitaria ser fiador de ambos. Ainda assim, Paulo Rangel teria mais facilidade em encontrar fiador para um crédito: há sete que o escolheriam, contra quatro que dariam esse sinal de confiança a Rui Rio. Paulo Colaço, que até é conhecido pelas disputas que já teve com Rio, encontra uma explicação possível. “Rio não compra nada a crédito, só a pronto”, justifica o presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD. A maioria dos militantes que aceitaram responder não têm dúvidas de que qualquer um dos dois se levantaria da toalha para os salvar se se estivessem a afogar na praia. São 12 os que acham que ambos se atirariam ao mar, enquanto cinco acreditam que nenhum dos dois faria esse esforço. Para seis, o mais provável era ser Rangel a tentar o salvamento, enquanto cinco imaginam que seria Rio o mais lesto a fazê-lo. “Não sei se algum deles sabe nadar o suficiente”, brinca Luís Gomes. “O Rio é mais atlético, seria mais eficaz”, acredita um dos que responderam sob anonimato. Rio, cauteloso e atlético Uma das categorias em que Rui Rio vence Paulo Rangel é na capacidade física. Seja pelo aspeto ágil do líder do PSD ou pelo seu passado no atletismo, 15 dos inquiridos imaginam-no a ganhar uma corrida de 100 metros ao seu adversário, contra os 12 que apostam em Rangel como o cavalo vencedor desta prova. “Pela estrutura física, ganha o Rio. Agora, se for no sentido de dizer que estas eleições vão ser uma corrida de 100 metros, acho que é o Rangel”, confessa Bruno Vasconcelos, que se diz indeciso entre os dois. Também há mais sociais-democratas a descrever Rui Rio como mais cauteloso. Perante um aviso de avalanche iminente, 11 dos inquiridos acreditam que Rio seria o primeiro a fazer marcha-atrás na escalada. “O Rio é mais germanófilo a pensar, cumpre as regras, o Paulo talvez tenha maior disponibilidade para as infringir”, comenta um dos que responderam pedindo para manter o anonimato. Há, contudo, 10 inquiridos que acham que Rangel seria o primeiro a recuar e oito que acreditam que ambos voltariam para trás ao primeiro aviso. “Embora com estilos muito distintos, são ambos cautelosos e prudentes”, acredita Hugo Neto. Uma das questões feitas e em que se revela a forma de lidar com situações de conflito é aquela que convida a pensar sobre quem chamaria a polícia e quem optaria por assinar uma declaração amigável em caso de acidente de viação. Aqui, como as possibilidades de resposta eram muitas e mais abertas, a variedade de reações foi enorme e de difícil tradução numérica – daí que tenhamos optado por não a pôr nos gráficos abaixo. Ainda assim, é pelo menos possível identificar tendências: oito dos inquiridos imaginam Rio a chamar a polícia e sete, quase o mesmo número, acreditam que Rangel optaria pela declaração amigável. “Preenchem os dois a declaração amigável, do que conheço deles”, garante Ruas. “Rio chama a polícia, faz participação ao Ministério Público e à Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária”, brinca Hugo Neto. “Rio tenta preencher a declaração amigável, está mais habituado a fazer acordos”, contrapõe um apoiante de Paulo Rangel, que não se quis identificar. No sábado, haverá 46.029 militantes sociais-democratas com quotas pagas, em condições de votar para eleger o novo líder do partido e, portanto, o seu candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas. Resta saber que peso relativo terá a avaliação pessoal e psicológica que fazem de cada um dos candidatos e a orientação de voto das estruturas distritais e concelhias na votação. ● Maria Henrique Espada

Images:

© PressReader. All rights reserved.