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Sábado - 2021-11-25

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Rui Nabeiro: 90 anos, 90 histórias do criador do império Delta

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Por Paulo Barriga

Rui Nabeiro é o único dos multimilionários portugueses que começou verdadeiramente do zero. A partir de Campo Maior, a pequena vila alentejana onde nasceu há 90 anos, erigiu um império, o Delta Cafés, que é hoje cobiçado pelos grandes tubarões internacionais do setor, como a Nestlé ou a PepsiCo. Nunca o quis vender porque, como disse à SÁBADO, ficaria sem o seu único entretenimento: trabalhar. Leva uma vida frugal: não consegue gastar a semanada de 200 euros que destina a si próprio, mas construiu habitações para os seus trabalhadores e leva-os a viajar. Durante a pandemia, pagou os mais de 3.500 ordenados que dele dependem, sem recorrer ao lay-off, transformou um restaurante de luxo em cantina social e reconverteu uma fábrica de toldos publicitários em unidade de produção de equipamentos de proteção social que distribuiu gratuitamente pelos hospitais, bombeiros e lares de terceira idade do país. Ao longo de uma vida cheia foi e fez muito mais. Esta biografia em 90 episódios começa pelo fim, pela sucessão. Desliza pelos altos e baixos de uma carreira em que o sucesso se impôs. E acaba com um sorriso: “Quando a vida se encontra com um sorriso, não há dúvida nenhuma que tudo se torna maravilhoso. É isso que falta aos portugueses: saber sorrir.” 1 A sucessão ▶ Aos 90 anos e passadas seis décadas sobre a “revolução” da indústria do café em Portugal, Manuel Rui Azinhais Nabeiro (Senhor Rui, para os amigos), quebra o tabu sobre a sucessão na liderança da Delta Cafés: “Já fiz as partilhas e já tenho as pessoas indicadas nos respetivos lugares.” Está em marcha o ano zero do resto da vida do maior império cafezeiro português. “São moços de trabalho, estão preparados para encarar o melhor e o pior”, diz. 2 Sempre o primeiro ▶ Coube ao neto Rui Miguel Nabeiro, que se notabilizou pelo fomento das cápsulas Delta Q, o lugar de CEO da comissão de gestão que vai traçar os trilhos do grupo de Campo Maior. Tudo em família, dirá Rui Nabeiro: “Nunca uso o singular, só todos juntos poderemos ser algo.” Mas, apesar da idade, o fundador da Delta Cafés manterá o cargo de presidente do Conselho de Administração. “Estou cá todos os dias, sou quem cá chega primeiro.” Como sempre, desde 1961. 3 Museu Nabeiro? ▶ “Vamos lá ver o nome que vamos dar àquilo”. “Aquilo” é um projeto que o arquiteto Siza Vieira (que ▶ desenhou a Adega Mayor, o primeiro lagar vinícola com assinatura de autor em Portugal) tem em mãos para transformar o antigo hotel da família, o Santa Beatriz, numa “espécie de museu” para agregar o acervo pessoal do fundador da Delta. 4 Um quarto para sete ▶ Aos 90 anos, Rui Nabeiro é um dos homens mais ricos de Portugal. A revista Exame avalia-lhe a fortuna em cerca de 462 milhões de euros. Mas nasceu numa família de camponeses pobres. Nos anos 0 partilhava um quarto com os pais e com os quatro irmãos. “Sou uma pessoa que sonhei, realizei e concretizei”, afirma. 5 Cavador e motorista ▶ O pai, Manuel dos Santos Nabeiro, “era um homem de esforço e sacrifício”. Cavador de enxada até ir para a tropa, “onde lhe arranjaram a carta de condução” na condição de servir, na vida civil, o cunhado do comandante militar: um médico e latifundiário de Campo Maior. “Mal sabia ler, mas comprava sempre o seu jornalinho e até a assinatura já fazia razoavelmente”. Quando morreu, Rui tinha apenas 17 anos. 6 O vício dos jornais ▶ Ao fim de semana junta uma série de jornais e revistas para ler. Não se lhe conhecem outros interesses, passatempos ou rotinas que não passem pela Delta: “Gosto do mundo onde estou porque trabalho, gosto de trabalhar, vale a pena trabalhar. Não tive tempo para criar vícios.” 7 Um otimista ▶ Vem igualmente do lado do pai a sua afeição ao futebol em geral e ao Benfica em particular. Já não vai aos estádios, mas gosta de assistir a “um bom jogo” pela televisão. E mesmo quando a sua equipa está a perder, pensa sempre que “há ali algo a ganhar”: “na vida como no futebol, sempre fui um otimista”. 8 Expulso do balneário ▶ Otimismo que nunca deixou de transmitir aos jogadores do Sporting Clube Campomaiorense, a que presidiu durante 40 anos e de que o filho João Manuel Nabeiro foi também presidente. “Ia ao balneário para dar força. Por vezes obtinha algum resultado, outras não valia de nada... houve até uma ocasião em que os jogadores me puseram na rua.” 9 Perder e ganhar ▶ Na final da Taça de Portugal de 1999 também houve expulsões. Duas para o Beira-Mar, uma para o Campomaiorense. O troféu foi para Aveiro, entregue por Jorge Sampaio. O mesmo Presidente que, em janeiro de 2006, haveria de lhe dar a sua segunda comenda: a da Ordem do Infante D. Henrique. 10 Equipa de 3.500 ▶ “Nada em que uma pessoa entre e lhe traga alguma mais-valia pode ser dado como um mau investimento.” Mesmo quando se trata de futebol. O Campomaiorense, na década de 90, levou o nome da vila alentejana a todo o País, elevou a autoestima dos locais e disseminou a marca do único investidor, a Delta Cafés. Quando chegou a “polémica hora” de acabar com o futebol profissional, “as pessoas perceberam bem o que interessava”: não faltar o trabalho na fábrica, nem o “ordenadinho” ao fim do mês. Hoje, são mais de 3500 os titulares da equipa Nabeiro. Entre os quais, metade da população em idade ativa de Campo Maior. 11 Sonho de ser alguém ▶ Em 1961, no pontapé de saída da Delta Cafés, os colaboradores que lidavam com as duas “bolas de torra” que Rui Nabeiro pôs a laborar num armazém de 50 metros quadrado eram apenas três: dois ex-GNR e um guarda fiscal da reforma. “Sonhava ser alguém. Comecei a trabalhar para mim muito cedo. Nunca fui criança, nem adolescente. Mas temos de ser francos: nunca adivinhei nem calculei chegar a um valor desta dimensão”, diz. 12 Dinheiro que assusta ▶ Qual é essa dimensão? “É difícil responder... nem gostaria de responder a isso.” Certo é que propostas para a aquisição da Delta Cafés não faltaram ao longo dos anos. Principalmente por parte das gigantes Nestlé, PepsiCo ou Philip Morris, que lhe chegaram a acenar com valores na ordem dos “mil e muitos milhões de euros”. “É muito dinheiro, é dinheiro que assusta qualquer pessoa. Mas não vendi, graças a Deus.” 13 Os vícios, outra vez ▶ Foi a voracidade demonstrada pela concorrência global que impeliu Rui Nabeiro a blindar, em 2000, as ações da casa-mãe do grupo, a sociedade gestora de participações sociais NabeiroGest, contra qualquer investida exterior ao núcleo familiar. Porquê? Vender “aquilo não dava gozo nenhum, apanharia uma mão cheia de vícios, está a ver? Coisa que nunca tive. Assim, a fábrica é a forma de me entreter todos os dias e de partilhar um pouco do meu sorriso”. 14 Um homem evoluído ▶ É no início da década de 40 que Rui Nabeiro se começa a “entreter” com o negócio do café. A necessidade aguça o engenho, que era substância que não faltava a um dos seus tios paternos, Joaquim Nabeiro, o “verdadeiro” precursor da indústria de torrefação de Campo Maior. “Um homem evoluído para a sua época”, sintetiza o aprendiz, Rui. 15 Moço de recados ▶ Antes de se juntar ao tio, conhecido na vila por Joaquim d’Olaia, Rui Nabeiro ajudou a família “naquilo que foi preciso”. Isso passava pelos “recados” que a mãe lhe reservava. Fosse a entregar carnes frescas e enchidos da pequena salsicharia artesanal, fosse nos afazeres da mercearia familiar onde linguiças e farinheiras eram vendidas: Alimentação e Salsicharia Sra. Maria Azinhais. “Era uma santa, a minha mãezinha”, diz. Dessa área de negócio apenas sobram as memórias. Nos últimos 25 anos Nabeiro ainda manteve uma rede de supermercados, as Lojas Alentejo. Em março de 2021 vendeu à Sonae o último estabelecimento que detinha em Campo Maior. 16 Um 31 de empresas ▶ O epicentro das suas ideias sempre foi o café. Em todas as vertentes. Da compra do grão verde à indústria de torrefação. Da embalagem à expedição. Da comercialização ao marketing. Do fabrico das máquinas para consumo aos programas de faturação. Do imobiliário aos automóveis. “Todos os dias acrescentamos qualquer coisa”, confessa. O Grupo NabeiroGest, alicerçado na sub-holding Delta Cafés, reúne hoje 31 empresas. 17 O aprendiz ▶ O “império” fundou-se no dia em que Rui foi chamado a dar serventia na Torrefação Cubana, a primeira indústria cafezeira nascida e criada em Campo Maior, às mãos do tio Joaquim. Um moço rebelde que, aos 15 anos, ainda antes de estalar a guerra fratricida do outro da fronteira, fugiu de casa rumo a Espanha. “Andou por lá um ano e foi empregado numa torrefação”. No regresso quis “pôr uma fabriqueta a trabalhar”. 18 O travão ▶ A muito custo, Joaquim desviou o irmão Manuel das juras eternas à vida de chofer: “Tu vens para aqui, não tens necessidade de andar a aturar os outros. Trabalhas para mim e eu trabalho para ti.” A pouco custo juntou à equipa o “rapaz” que ainda é o fiel depositário da história do café em Campo Maior. “O tio Joaquim gostava muito de mim. Estava sempre ao lado dele e ele precisava de alguém que o travasse um bocadinho. Era eu que o travava.” 19 A Camelo ▶ A aventura de Rui Nabeiro no mundo dos cafés tornou-se uma caminhada de quase oito décadas, sem travões. Um longo percurso onde a Cubana se extinguirá para dar lugar à Camelo (o primeiro café que ainda toma todos os dias pela manhã, misturado com leite, “para aguentar mais”) e onde o nome de família Nabeiro se dispersará por diferentes fábricas e marcas concorrenciais. 20 Eldorado do café ▶ Rui Nabeiro tinha três tios paternos, tantos quantas as marcas de café que surgiram no início da corrida ao eldorado campo-maiorense. O pai, já se sabe, uniu-se ao tio Joaquim na Cubana/Camelo. O tio João dos Santos deixou a Guarda Fiscal para fundar a Cubano. E o marido da única tia, de apelido Silveira, deu o nome a outra linhagem do negócio. 21 Concorrência interna ▶ A Torrefação Silveira ainda hoje é autónoma. As outras foram integradas no universo Delta: “Fui adquirindo posições de primos que

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