Publication:

Sábado - 2021-11-25

Data:

ANGELINA JOLIE “Os refugiados são capazes de ter sido os meus heróis”

A Semana

Por Vicky Dearden/The Interview People (texto)

Personagens assumidamente gay, o primeiro beijo entre heróis do mesmo sexo, um super-herói com uma deficiência auditiva. O novo filme da Marvel, Eternals (Eternos) já gerou polémica, mas foi precisamente esta diversidade que conquistou Angelina Jolie. “Estou orgulhosa da Marvel por ter recusado cortar estas cenas”, disse à imprensa internacional. “Não consigo perceber como é que vivemos num mundo em que ainda há pessoas que não veem a beleza da família Phastos [o super-herói casado com Ben].” Ao lado deles está uma das mais importantes atrizes do mundo. Angelina é Thena, a guerreira que apesar de já ter vivido mais de 7 mil anos, nunca envelheceu. No ecrã, diz nesta entrevista, estão também os seus traumas. Um deles, já admitiu, foi o divórcio do ator Brad Pitt, em 2016, que a deixou “destroçada”. Para os filhos, disse também, Thena tem semelhanças com a mãe. “Uma mulher vulnerável que é vista como poderosa.” Qual foi a sensação de se juntar ao Universo Cinemático da Marvel (MCU)? Tem sido maravilhoso. Sinto-me com muita sorte por ter entrado especificamente neste filme porque adoro esta história, mas, acima de tudo, porque adoro a diversidade e a inclusão neste elenco e nesta família. Espero que isto se torne um novo normal e estou entusiasmada para que muita gente o veja e que vá agora rever-se a si própria, algo que nunca tinha acontecido antes. Este filme tem a primeira cena íntima da Marvel entre parceiros do mesmo sexo e o primeiro super-herói abertamente gay. É uma nova era para o MCU? Sim, há muitas, muitas estreias neste filme. Como foi fazer o papel de um super-herói pela primeira vez? E como se sentiu quando se apresentou em público com o fato? Honestamente, com o que já fiz e vi e com a forma como já todos imaginámos que fossem vários super-heróis, não foi assim tão estranho para alguns de nós entrar nisto. A saúde mental já era uma coisa diferente e trouxémos vários aspetos novos. Quando vesti o fato pela primeira vez, lembro-me de estar de pé a pensar: “Ó meu Deus, vou mesmo fazer isto?” Sentia um pouco: “Isto é de doidos.” E depois fui lá para fora, vi os outros e fiquei muito emocionada, porque nunca tinha visto aquela família antes. Lembro-me de perguntar a alguns deles: “Como é que vocês se sentem com os vossos fatos vestidos?” E tu [virando-se para Chloé Zhao, a realizadora] respondeste: “Como é que eu me sinto? Eu nunca tinha visto um super-herói paquistanês [Kumail Nanjiani]. Sinto-me fantástica.” Esta é a minha recordação mais forte. Porque é que decidiu ficar loura para este papel? Bem, isso são os comics [banda desenhada]. E, para mim, enquanto artista, é divertido ficar com uma aparência diferente da que tenho tido noutros filmes, tornar-me por completo uma personagem diferente. Quão importante é representar uma personagem feminina forte, mas que também não tem medo de mostrar as suas fraquezas? Muito importante. A ideia de que alguém pode ser um super-herói e perfeito – ninguém é perfeito. Por isso adorei. Foi muito importante poder dizer às pessoas: todos nós estamos magoados de uma maneira ou de outra, todos nós trazemos connosco algum trauma, muitos de nós mais do que as pessoas possam imaginar. E ser capaz de lutar através de tudo isso, de continuar a andar para a frente mesmo com isso, é o que faz as pessoas verdadeiramente fortes e heroicas. Espero que as pessoas que se debatem com os seus traumas percebam isso quando virem este filme e que isso as faça sentir melhor. Pode falar-nos do lado traumatizado de Thena? Todos nós temos mágoas. Tenho sido muito abençoada em muitas coisas na minha vida, mas também tenho mágoas. A personagem estava a sofrer com a sua saúde mental, mas a forma como a Chloé [Zhao] trabalha implica arrancar mais de nós, para ser mais autêntico, porque é assim que ela dirige. Passámos muito tempo a falar as duas acerca da minha PSPT [Perturbação de stress pós-traumático] e do que são realmente estes traumas. Trouxemos isso para o filme. E, para mim, o que foi especial foi ser capaz de mostrar que aqueles que têm problemas com a sua saúde mental são também pessoas capazes de ser extremamente poderosas e fortes. Ficou nervosa, de alguma maneira, quando aceitou este papel? Eu só tinha medo, medo não, eu só estava hesitante pelo facto de saber que o fãs do MCU levam este universo muito a sério e que significa muito para eles. Quando se entra num projeto que tem uma base de fãs destas, não se quer desiludi-los. Estava nervosa, mas isso fez-me trabalhar mais arduamente. Como é fazer um filme destes? É tão divertido. É mesmo muito divertido. Adoro filmes que eu saiba que, pelo mundo fora, alcançam todas as idades e pessoas. São os meus favoritos. O que havia em Thena que a atraiu a fazer este papel? Eu quis fazer parte desta família. Não me deram o guião, eu não sabia qual seria a dimensão da minha participação, nem sabia muito acerca do meu papel. A única coisa que sabia era que seria a Chloé [Zhao] a realizar e sabia que teríamos uma família mais inclusiva do que alguma vez tivéramos. E, por essa razão, queria apoiar e aderir. A missão de Thena é salvar a Terra. Qual é a missão da sua vida? Ser útil aos outros, seja de que forma for, quer seja com os meus filhos ou com os refugiados, ou como quer que possa sê-lo. De modo a sentir que, no fim da minha vida, vivi uma vida que foi útil para os outros. Gostava de super-heróis quando era miúda? Não sei se gostava de super-heróis quando era pequena! [Risos] Eu queria muito ser o Indiana Jones, mas depois consegui fazer de Lara Croft: Tomb Raider… portanto, as coisas funcionaram bem. Quem são os seus heróis pessoais? Para mim, muitos daqueles que estão na linha da frente, as pessoas que dão cada minuto de cada dia da sua vida para arriscarem as suas vidas pelos outros que estão lá fora neste exato momento. E todas as pessoas com quem eu tenho trabalhado muitas vezes, ao longo de muitos anos, com os refugiados. As pessoas falam muitas vezes deles [dos refugiados] como se fossem um fardo que vem para o país de outra pessoa qualquer, mas não falam de como eles não pegaram em armas, de que a razão por estarem a fugir é serem quem são, por causa das suas crenças, convicções e dos direitos que querem dar às suas famílias. Que deixaram tudo e sobrevivem todos os dias sem praticamente nada. Por isso, eles são capazes de ter sido os meus heróis. Há muitos. Às vezes esquecemo-nos, mas há mais bem do que mal pelo mundo fora e há muitas pessoas a fazerem muitas coisas fantásticas. Os Eternals tiveram as memórias apagadas antes de as recuperarem de novo. O que pensa sobre as recordações: as memórias atrasam-nos ou aprendemos com elas? E acredita nos remorsos? As memórias podem sobrecarregar-nos, mas acho que é isso a nossa vida, uma coleção de momentos e recordações. Pegamos neles, e todos, em conjunto, moldaram-nos. Não acredito em remorsos. Acredito que tudo, mesmo a coisa mais negra, de algum modo temos de a deixar moldar-nos e, depois, o importante é o que se faz com essas experiências e memórias. Mas às vezes são difíceis. O que quis dizer a uma nova geração com este filme? De muitas maneiras sinto que foi esta geração que fez pressão para que este filme fosse o que é. Temos visto muita gente nova a expressar em voz bem alta o facto de não se sentir suficientemente representada. Quais são os maiores desafios que a Terra está a enfrentar neste momento? Estamos a viver tempos muito difíceis, todos nós. Seja ao nível de pessoas deslocadas, dos conflitos em curso, das alterações climáticas, dos efeitos de todas estas redes sociais e da exposição dos nossos filhos – estamos a viver tempos que os nossos pais ou avós não compreenderiam e penso que nós também ainda não compreendemos. Por isso, de muitas formas, a mensagem de Eternals é que a única forma de avançarmos é estarmos verdadeiramente unidos. Com igualdade, compreensão e empatia. Temos de lutar juntos e não uns contra os outros. O que é que está na calha a seguir para si? Não posso revelar ainda, mas há um projeto em que estou a trabalhar que tem ligações com a Grécia. Vão descobrir nos próximos meses. O que torna os Eternals diferentes dos outros filmes Marvel? Chegamos como uma equipa, como uma família e vocês conhecem-nos juntos – não separados. Adoro isso. Adoro o facto de não pensarem em nós como indivíduos, e espero que nos identifiquem como uma família. É isso que é diferente e especial acerca deste filme e eu gostava que ele permanecesse assim à medida que avançássemos. E quanto ao próximo capítulo de Eternals? Gostaria de explorar mais esta personagem? Sim. Espero ter essa oportunidade. Não sabia no que me estava a meter ao entrar nisto, porque, como sabe, concordei fazê-lo ainda antes de ter lido o guião. Mas agora que todos nos tornámos esta família, suponho que tudo se resume aos fãs. Espero que eles nos queiram de volta, porque, de facto, adorei este filme. ●

Images:

© PressReader. All rights reserved.