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Sábado - 2021-06-09

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AFINAL, SER FELIZ É UMA CIÊNCIA

Sociedade

Por Vanda Marques

A ciência está a investigar a felicidade e tem as respostas que procura: ajude os outros e corra COMPORTAMENTO. AS DICAS QUE PODEMOS TIRAR DOS ESTUDOS CIENTÍFICOS Meter conversa com estranhos, ir jantar fora ou fazer voluntariado. Tudo isto são estratégias para ser feliz e todas têm suporte científico. Psicólogos e economistas têm-se dedicado a estudar a felicidade e as descobertas são surpreendentes. Até um prémio Nobel da Economia já se debruçou sobre o tema e descobriu que está relacionado com a memória. O assunto é tão sério – e complexo – que existe uma cadeira na Universidade de Yale que aplica as descobertas científicas ao dia a dia. “Ser feliz dá trabalho, temos de mudar os nossos hábitos”, diz à SÁBADO Laurie Santos, a professora responsável pela disciplina. Porque é que dá trabalho? O nosso cérebro não ajuda muito. Por exemplo, recordamo-nos mais das experiências más do que das boas. Outra prova: compararmo-nos com os outros e regermos a nossa felicidade por isso. Laurie Santos apresenta um estudo: “Ao analisar o rosto de vencedores olímpicos, percebeu-se que o vencedor da medalha de prata não está tão feliz como o da de bronze. É que o segundo só pensa em como esteve tão perto de ganhar o ouro.” AJUDAR OS OUTROS Carla Henriques nunca mais esqueceu o poço que construiu em Marrocos. Ainda hoje recebe fotografias da família que ela, e o grupo de voluntários da plataforma WorkAway, ajudou. É que o poço permitiu que pudessem receber turistas. “Nunca tinha feito nada assim, mas a experiência do voluntariado permite-nos fazer de tudo um pouco. Gosto de sentir que ajudo”, conta. Ajudar os outros é uma forma eficaz de sentirmos bem-estar. São vários os estudos que indicam que até um pequeno ato de solidariedade faz a diferença. “Há muitas provas de que ajudar os outros melhora a nossa felicidade. Experienciamos a recompensa ao ajudar porque somos uma espécie social. Gastar dinheiro com os outros pode tornar-nos mais felizes do que gastá-lo connosco”, explica Laurie Santos, a professora de Psicologia em Yale. Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Science analisou o cérebro de pessoas, através de ressonância magnética, enquanto decidiam doar dinheiro. Conclusão: no momento em que o faziam, libertavam ocitocina, a hormona associada ao prazer. Outro estudo da Universidade da Califórnia pediu a estudantes que fizessem cinco atos de solidariedade por semana, durante seis semanas. Resultado? Aumento de 42% na sua felicidade. Mas não é preciso ir tão longe como Marrocos para ajudar. E até mesmo uma pessoa tão ocupada como Tiago Andrade e Silva – 49 anos, engenheiro informático na Microsoft e com quatro filhos (dos 16 aos 24 anos) – consegue fazê-lo praticamente todos os dias. É voluntário no Banco Alimentar e pôs ao serviço desta organização as suas competências profissionais. “Sinto felicidade quando vejo o impacto do que faço. Por exemplo, conseguir mais doações tornando o site alimentestaideia.pt mais simples de usar ou até fazer com que percam menos tempo a operacionalizar as doações”, diz à SÁBADO. Tiago tanto pode estar a ajudar à uma da manhã como às 7, mas esse acréscimo de responsabilidade não lhe pesa. “Não me imagino a não fazer voluntariado.” EXERCÍCIO FÍSICO Apenas 30 minutos de exercício diário é tão eficaz como um antidepressivo, diz à SÁBADO Laurie Santos. A psicóloga, especialista em comportamento, criou a cadeira Psicologia e a Boa Vida, que é a de maior sucesso na prestigiada universidade americana. As estratégias científicas da felicidade que partilha já chegaram a 3 milhões de alunos. Uma das dicas que Laurie dá é a que Dora Matos, de 30 anos, aplica: exercício físico. Antiga jornalista, hoje é coach de saúde – dá aconselhamento a pessoas para terem uma vida mais saudável, ativa e mudarem hábitos – e faz exercício todos os dias. A razão é simples. “Influencia a minha autoestima, a qualidade do meu sono, no fundo, o meu bem-estar.” Entre 30 e 45 minutos, por dia, tanto pode ser corrida, bicicleta ou pilates. “O desporto é o chamado hábito mestre, que consegue desencadear uma série de ações que ditam como as pessoas funcionam. Normalmente atrai outros hábitos, levantar mais cedo, comer saudável”, explica Dora, referindo que nos dias em que não pratica se sente mais irritada. A ciência dá-lhe razão. Uma investigação publicada na revista The Lancet em 2020 comprovou isso mesmo. Cientistas de Yale e Oxford colecionaram dados biológicos e do estado mental de mais de 1,2 milhões de americanos e descobriram que os que não faziam exercício regularmente se sentiam pior. Mais concretamente, os que faziam ginástica sentiam-se mal 35 dias por ano. Os que não se mexiam mais 18 dias por ano. CONVERSAS Para visitar 40 países, numa média de quatro a cinco viagens por ano, Artur Cabral tem de pôr a timidez de lado e conversar com todo o tipo de pessoas. O fotógrafo começou a partilhar as imagens das suas viagens e em pouco tempo já recebia mensagens de amigos que queriam ir com ele. Sem saber, Artur Cabral, de 40 anos, acumula vários pontos na estratégia de ser feliz. Falamos de viagens, de fazer amigos e de falar com estranhos. “Fotografar faz quebrar alguma da minha timidez no contacto com as pessoas. A felicidade na viagem é estar, mais do que ver, e isso implica falar com estranhos.” A experiência da Universidade de Chicago comprova essa satisfação. Os investigadores pediram a um grupo para meter conversa durante a sua viagem de comboio e a outro para não falar com ninguém. Os que se sentiram mais felizes foram os faladores. Laurie Santos não se surpreende com este resultado: “A investigação mostra que o simples ato de estarmos perto de outras pessoas nos pode tornar mais felizes e melhorar a saúde mental.” EXPERIÊNCIAS Para falarmos de felicidade há um conceito que não pode ficar de fora: a memória. O psicólogo Daniel Kahneman, Prémio Nobel da Economia em 2002, defende que é a memória da felicidade que nos dá a satisfação. O especialista diz que o presente tem apenas três segundos e por isso há grandes diferenças entre o “eu que experimenta” (o agora) e o “eu que se lembra” (aquele que analisa as experiências). Por exemplo, a duração de umas férias não tem implicação na quantidade de memórias. O truque é fazer coisas diferentes – é a mudança de rotina que faz com que se guarde as memórias. É o que Carla Henriques, de 39 anos, faz desde que trocou a vida de engenheira ambiental pela de líder de viagens da Papa-Léguas. “É a sensação de sair da nossa zona de conforto. Ficamos com todo o tipo de histórias e parece que reconectamos o cérebro e ficamos mais criativos”, diz à SÁBADO. É por isso que a sua preocupação é levar os turistas a ter várias experiências. “Mais do que ir ver o Taj Mahal, quero que conversem com aquele velhote que lhes dá chá na sua casa. É esse o sentimento de satisfação que perdura.” O especialista em comportamento Nadav Klein explica à SÁBADO a razão por que estas memórias ficam connosco: “Ter uma experiência torna-te mais feliz porque a experiência ajuda-te a criar mais conexões sociais e a própria experiência torna-se cada vez melhor à medida que a recordas ao longo dos anos e porque foi única”, diz o professor no INSEAD – Instituto Europeu de Administração de Empresas que estuda a felicidade. DINHEIRO Todas as semanas cerca de 100 milhões de pessoas na Europa jogam no Euromilhões. Ganhar dinheiro parece ser a resposta para a nossa felicidade. Mas a psicologia já desmontou esse mito. Um famoso estudo da Northwestern University, do final dos anos 90 – sim é antigo, mas continua atual –, mediu a felicidade dos vencedores da lotaria nos EUA seis meses depois de receberem o prémio. Descoberta: os níveis de satisfação eram ligeiramente inferiores aos do dia em que ganharam. Bizarro? Isto acontece por causa da adaptação hedónica. Não se assuste com o nome. “O fenómeno conhecido como adaptação hedónica é a ideia de que nos habituamos às coisas. Digamos que tens um aumento, no início, notas uma melhoria de bem-estar, mas habituas-te rapidamente. As coisas materiais não nos fazem tão felizes como pensamos, nem por tanto tempo como imaginamos porque nos habituamos”, diz Laurie Santos. Claro que existe um patamar mínimo em que precisamos de dinheiro. O investigador de psicologia José Pais Ribeiro estudou o tema. “Quando há aumento de rendimento, há felicidade, mas isso não se verifica tanto a partir de um ponto em que as pessoas entram num patamar de segurança.” E acrescenta: “Temos o conceito errado de felicidade. Uma pessoa com 10 milhões de euros não é mais feliz do que uma com 90 mil.” Georg Dutschke, investigador na Universidade Atlântica, analisa a importância da felicidade no emprego – por exemplo, quem está mais feliz no trabalho falta menos 75% – e descobriu que a remuneração é importante até um determinado nível. “Num estudo que fizemos, percebemos que a partir do momento em que ganhamos o suficiente para viver com dignidade, isso não é o mais importante para o bem-estar. Apenas 12% diziam que isso era determinante para a felicidade no trabalho.” O que a investigação de Georg Dutschke mostra é que são outros fatores a dar mais satisfação: “Sentir que a organização reconhece o nosso trabalho, que nos podemos desenvolver, que há um bom equilíbrio trabalho-família e ainda que há entreajuda dos colegas.” MINDFULNESS “A maior parte de nós está no passado ou no futuro. Este reino de estar no momento presente é raro e junta-se a um conjunto de atitudes: a do não julgamento e a da aceitação de tudo o que vai acontecendo.” Quem o diz é Carla Serrão, psicóloga, que, em conjunto com Ana Rita Rodrigues, também psicóloga, escreveu o livro Renascer: Meditação Mindfulness. As investigadoras, da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, sublinham que o mindfulness é um caminho para viver de forma mais feliz. Defendem ainda que devemos praticar o desapego aos sentimentos ruminativos e depressivos: praticar o “deixar ir.” É que muitas vezes nos focamos mais nas coisas negativas do que nas positivas. “Tem a ver com o fenómeno de sobrevivência. O nosso cérebro prepara-se para o pior e fica no modo: luta, congela ou foge. Continuamos, apesar das circunstâncias, nesta lógica”, diz Carla Serrão. A psicóloga Ana Rita Rodrigues esclarece o impacto do estar presente. “Quando praticamos mindfulness, ficamos mais conscientes, diminuímos este viés cognitivo de cariz negativo. Focar-nos em pequenas coisas: uma boa refeição, uma conversa que deixou um quentinho no coração, torna-nos mais disponíveis. Além disso, ter gratidão perante a nossa vida também tem impacto. Pessoas que são mais gratas, reparam mais nas coisas boas.” E há provas de como o mindfulness resulta. Em Harvard, criaram a app What makes us happy? [o que te faz feliz?], que foi usada por 15 mil pessoas. Conclusão: os que se sentiram mais felizes foram os que conseguiam aproveitar melhor os momentos presentes. Como explica a autora do livro The Happiness Trap, Emma Seppälä, temos três vezes mais experiências positivas no nosso dia do que negativas. Por isso, temos de ser mais conscientes. A diretora da Escola de Gestão de Yale estuda o impacto do bem-estar no trabalho, do mindfulness e da compaixão. “Não podemos controlar a pressão e o stress que surge nas nossas vidas, mas há uma coisa que conseguimos fazer: controlar o nosso estado de espírito e resiliência face ao stress.”

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